
A fortaleza e o pátio da terceira via
Na teoria, a terceira via é só seguir Jesus. Na prática, adota o enquadramento da esquerda, a equivalência moral e caricaturas. Parcha analisa Keller.
Nota do editor: O autor analisa o debate americano sobre a "terceira via", postura associada a Tim Keller e ao The Gospel Coalition, que propõe ficar acima da polarização entre direita e esquerda. Os exemplos vêm da política dos EUA, mas o padrão que ele descreve, de defender em teoria um "só seguimos Jesus" enquanto na prática se adota o vocabulário da esquerda, é bem conhecido também no meio evangélico brasileiro.
Enquadramento de esquerda, equivalência moral e caricaturas
Com a recente onda de artigos e vídeos sobre a chamada abordagem da "terceira via" para a política e as questões sociais, é fácil se perder ao tentar entender o que exatamente é a terceira via e o que ela de fato faz. Um refrão constante dos defensores da terceira via é que seus críticos muitas vezes atacam uma caricatura dela e raramente definem o termo corretamente. Por isso, talvez seja melhor começar aqui: como pessoas influentes, em geral favoráveis à terceira via, definem o termo? Seguem três definições, de Chris Watkin, Gavin Ortlund e Neil Shenvi, respectivamente.
[A terceira via] refere-se, como logo aprendi, a uma postura que rejeita as alternativas políticas ou culturais do tipo "ou isto, ou aquilo" oferecidas em nossa sociedade e busca uma terceira abordagem, diferente.
O que é o "terceiroviismo"? Em poucas palavras, é muito simples. O raciocínio é este: a política conservadora contemporânea, especialmente nos Estados Unidos, tem diferenças importantes em relação ao cristianismo histórico. E, mesmo que essas diferenças não sejam tão graves quanto as da esquerda política, ainda são importantes o bastante para que valha a pena apontá-las. Do nosso ponto de vista, isso não é realmente uma terceira via; é simplesmente a primeira via. Só queremos seguir Jesus, e é simples assim.
Keller rejeitava a ideia de que "a verdade está no meio, entre os extremos". Em vez disso, insistia que "os cristãos nunca devem buscar um meio-termo por si só". Seu argumento fundamental era que os cristãos devem "tomar posições que façam justiça ao ensino bíblico, quer o mundo os veja, segundo as categorias dele, como extremistas, quer como moderados".
Seria razoável fundir essas três definições numa só, dizendo que a terceira via é "seguir Jesus" "fazendo justiça ao ensino bíblico", o que exigirá rejeitar "as alternativas políticas ou culturais do tipo 'ou isto, ou aquilo' oferecidas em nossa sociedade". É isso que vou chamar de motte da terceira via, sua fortaleza: uma posição quase inexpugnável, que pode ser usada convenientemente sempre que a terceira via é atacada: "Ei, cara, a gente só quer seguir Jesus!"
Mas como é a terceira via fora dessa definição, fora da sua fortaleza? Como é a terceira via na prática? Como é a terceira via quando seus defensores a cultivam no bailey, o pátio?
Em resumo, a falácia do motte-and-bailey (fortaleza e pátio) é uma analogia em que a fortaleza representa uma posição fortificada, infalsificável e inexpugnável sobre alguma ideia. O pátio é a área ao redor da fortaleza e representa partes da posição que são muito mais difíceis de defender quando questionadas. Quando as pessoas são questionadas sobre as partes da posição que nascem no pátio, recuam para a fortaleza e insistem que a posição da fortaleza é a única que estão propagando. A falácia consiste em tratar a posição da fortaleza e as posições cultivadas no pátio como se fossem a mesma, quando de fato não são.
Gavin Ortlund exige críticas à terceira via que a apresentem em sua versão mais forte. "Que ela seja criticada em sua melhor forma." Seguindo essa diretriz, vou me voltar para Tim Keller, que costuma ser associado ao pensamento da terceira via e é citado favoravelmente nos argumentos em defesa dela.
Em 2018, Keller escreveu um artigo de opinião para o New York Times com o título "Como os cristãos se encaixam no sistema bipartidário? Não se encaixam". Quatro anos depois, pouco antes de sua morte em 2023, publicou um longo ensaio intitulado The Decline and Renewal of the American Church (O declínio e a renovação da igreja americana). Nesse texto, ele expõe sua visão de como a igreja americana pode ser renovada. Para isso, apresenta quatro "zonas" em que os cristãos evangélicos geralmente se enquadram (Zonas 1 a 4), divide duas delas ao meio (Zonas 2a e 2b; Zonas 3a e 3b) e então argumenta que a renovação da igreja americana virá principalmente das Zonas 2b e 3a. Esse artigo de opinião e esse longo ensaio (doravante, "ensaio das zonas") mostram como a terceira via, quando está fora de sua fortaleza e é cultivada no pátio, tem problemas sérios. Pode ser fácil recuar para a fortaleza quando a terceira via é questionada ("Só queremos seguir Jesus"), mas seus defensores deveriam ser obrigados a defender o modo como ela é posta em prática, especialmente por suas principais figuras.
Escolhi especificamente o artigo de opinião de Keller porque seu tema se baseia no pensamento da terceira via, porque é um bom resumo do pensamento de Keller e porque ainda é citado favoravelmente quando se discute a terceira via. O ensaio das zonas ilustra ainda mais o modo como Keller pensava que alguém poderia escolher uma "terceira via" (por meio da Zona de Renovação).
Cultivando a aceitação do enquadramento de esquerda
Fora de sua fortaleza, a terceira via endossa e promove o enquadramento de esquerda nas questões. O artigo de Keller é um exemplo claro disso: quase todos os exemplos do texto pendem para a esquerda e se baseiam em temas geralmente vistos como de esquerda. Repetidas vezes, num texto curto, Keller usa "os pobres" e "o racismo" como exemplos. Quando apresenta o exemplo específico de um "homem do Mississippi que era um republicano conservador", observa como esse homem foi "humilhado e corrigido" ao perceber que até seus amigos "socialistas" estavam "fundamentados em suas convicções cristãs". Por que não escolher o exemplo de um homem de Nova York que é "humilhado e corrigido" ao perceber que até seus amigos "fortemente conservadores" estavam "fundamentados em suas convicções cristãs"? Pense também neste exemplo específico que Keller usa: ele não apenas predispõe o leitor a ideias de esquerda; predispõe-no a um extremo do esquerdismo: o socialismo! De todos os exemplos que Keller poderia ter usado, escolheu este.
Mais adiante no texto, Keller menciona um exemplo de tema de direita ("o sexo é só para o casamento"), mas, de novo, passa esse tema por uma lente de esquerda: "Os cristãos devem estar comprometidos com a justiça racial e com os pobres, mas também com o entendimento de que o sexo é só para o casamento e para a criação da família. Uma dessas posições parece liberal, e a outra parece opressivamente conservadora". Percebeu? "Uma dessas posições parece liberal, e a outra parece opressivamente conservadora." A posição progressista é descrita como passiva e normal, mas a conservadora é descrita como agressiva e anormal, o que mais uma vez ilustra o enquadramento de esquerda.
As zonas do ensaio de Keller, The Decline and Renewal of the American Church, também têm enquadramento ou codificação de esquerda. Por exemplo, na Zona 1, que Keller descreve como a zona do fundamentalismo, as primeiras palavras de Keller são: "Contra qualquer conversa sobre justiça social". Essa frase pende para a esquerda por vários motivos. Primeiro, é formulada a partir de uma perspectiva negativa. Assim como quem descreve os pró-vida como "antiaborto", apresentar a defesa da justiça como oposição à justiça social é aceitar o enquadramento da esquerda sobre o tema.
Segundo, o oposto da justiça social é a justiça tradicional, e Thomas Sowell explica com muitos detalhes a "incompatibilidade inerente" entre esses dois tipos de justiça. Em certo momento, Sowell equipara a justiça social à inveja. Ele também escreveu um livro chamado Social Justice Fallacies (Falácias da justiça social). Sowell é um fundamentalista? O leitor precisa "acreditar no racismo sistêmico e na injustiça estrutural" só para entrar na Zona de Renovação de Keller, ideias que Thomas Sowell, Shelby Steele, Walter Williams, Voddie Baucham (e assim por diante) contestariam. E, claro, "fundamentalista", em nossa cultura, é um rótulo inerentemente negativo, que implica atitudes ou posturas "más" segundo um referencial moral de esquerda: intolerância, rigidez, anacronismo etc.
O ponto de tudo isso é que o enquadramento assume um viés de esquerda quando fala de justiça com o termo "justiça social" em vez de "justiça tradicional" ou simplesmente justiça. Keller poderia, com a mesma facilidade, ter descrito a Zona 1 como "a favor da justiça", mas não o fez. Preferiu adotar uma terminologia de esquerda, e não ignorava as implicações dessa terminologia. (Em seu livro de 2010, Generous Justice, Keller apresentou a "evangelização" e a "justiça social" como "inseparáveis".)¹
Isso me leva a outro exemplo de viés de esquerda nas zonas de Keller. Na Zona 1, Keller menciona que essas pessoas são "antivacina". Ser antivacina na era pós-covid é algo associado à direita, assim como ser "pró-ciência" é associado à esquerda. Keller menciona a pandemia ao tratar da Zona 1. Em todas as demais zonas (2a, 2b, 3a, 3b e 4), Keller não menciona a pandemia nem a vacinação. Para ser coerente em sua comparação dos grupos, Keller teria de acompanhar as posições sobre a vacina ao longo de todas as zonas. Por exemplo, quando chegasse à Zona 4, essas pessoas seriam descritas assim: "Tomam toda vacina e todo reforço possível. São as primeiras da fila!"? Não sabemos, porque, mais uma vez, a vacinação só é mencionada na Zona 1. Não acompanhar a questão da vacina ao longo das zonas já é, por si só, evidência de viés, mas o modo como a vacinação é descrita também é negativo ("antivacina"), em contraste com rótulos positivos (por exemplo, "pró-escolha", "pela autonomia corporal" etc.), o que mais uma vez ilustra o viés de esquerda da descrição.
A partir desses exemplos, deve estar evidente que, fora das descrições da terceira via feitas a partir da fortaleza, a aceitação e a promoção de valores de esquerda ficam muito visíveis quando ela é cultivada no pátio.
Cultivando a equivalência moral
Fora de sua fortaleza, quando não está endossando e promovendo valores de esquerda, a terceira via pratica a equivalência moral entre as pautas políticas da direita e da esquerda. Sei muito bem que os defensores da terceira via vão insistir que ela não pratica a equivalência moral, mas essa é uma posição de fortaleza, e há muitas evidências de equivalência moral no pátio.
Implicitamente, tanto no artigo de opinião quanto no ensaio das zonas, Keller equipara moralmente as questões raciais às questões de família. Por exemplo, como já vimos no artigo, Keller compara a "justiça racial" com "o sexo é só para o casamento", equiparando implicitamente as duas questões, embora as mantenha separadas. No ensaio das zonas, Keller compara "a família tradicional e a sexualidade" com "raça e justiça". A ideia aqui, mesmo que não seja dita explicitamente, é equiparar moralmente uma questão tipicamente associada à esquerda (a justiça racial) a uma questão tipicamente associada à direita (a família tradicional).
Há outros exemplos de equiparação moral no ensaio das zonas. Por exemplo, Keller descreve as pessoas da Zona 1 como "militantes" e usa a mesma descrição para as pessoas da Zona 4. Em outras palavras, os da Zona 1 são moralmente equivalentes aos da Zona 4; apenas estão em extremos opostos do espectro de valores. Keller defende a equivalência moral explicitamente: "Alguns disseram, com justiça, que este grupo [Zona 4] é tão militante e inflexível quanto os fundamentalistas que tanto teme".
Dois outros exemplos, fora de Keller, ajudam a mostrar como a terceira via, em seu pátio, cultiva a equivalência moral. Primeiro, J. D. Greear, no mesmo vídeo em que reconhece a "problemática equiparação moral da chamada terceira via", quase imediatamente emenda:
"Sabe, a vida inteira fui alertado sobre o perigo da vala da esquerda na estrada cristã: o liberalismo... mas ninguém nunca mencionou a vala da direita, que é o conservadorismo sem Cristo. É como diz aquele velho provérbio escocês: 'Para cada quilômetro de estrada, há dois quilômetros de vala'."
Embora Greear insista que não devemos equiparar os dois lados (fortaleza), é exatamente isso que ele está fazendo (pátio). Os dois lados são descritos como valas, os dois são descritos como estando em lados opostos de uma estrada do meio e as duas valas são descritas como prejudiciais. Seria mais convincente se Greear tivesse dito que de um lado há um precipício e do outro há uma vala. Nesse caso, eu seria obrigado a admitir que Greear não está equiparando moralmente os dois. Mas não foi isso que Greear disse. Ele descreveu os dois lados com o mesmo termo: vala.
O segundo exemplo vem de Gavin Ortlund, que, logo depois de dizer que era uma caricatura afirmar que a terceira via pratica a equivalência moral, disse isto:
"Mas há muita coisa no Novo Testamento que corresponde a essas palavras: mansidão, bondade para com todos, paciência. Muito do nosso discurso hoje não se parece com isso. Esses são alguns dos problemas que estamos vendo na direita. Claro, você também os vê na esquerda. Esse é o ponto. Esse é o ponto. E tudo o que estamos dizendo é que queremos seguir Jesus."
Essa declaração equipara moralmente a esquerda e a direita. A esquerda é ruim em mansidão, e a direita também. A esquerda não é bondosa com todos, e a direita também não. A esquerda não é paciente, e a direita também não. Se Ortlund quer ser levado a sério quando diz que a terceira via não faz equiparação moral, não deveria praticá-la no mesmíssimo vídeo.
Cultivando caricaturas
Fora de sua fortaleza, a terceira via cultiva caricaturas. Em seu artigo de opinião, Keller afirmou que os cristãos são "empurrados para duas opções principais": ou vão "retirar-se e tentar ser apolíticos", ou vão "adotar integralmente o pacote inteiro de um partido para ter um lugar à mesa". Keller declara: "Nenhuma dessas opções é válida". Gavin Ortlund, logo depois de repreender os críticos da terceira via por só atacarem sua caricatura, diz algo parecido: "Existe esse modo de pensar do tudo ou nada, do pacote fechado". Ortlund passa a explicar que é pró-vida, mas também "acredita nas mudanças climáticas", para ilustrar que ele não é o tipo de pessoa do tudo ou nada, do pacote fechado.
Depois de relatar como Donald Trump foi "vaiado e interrompido aos gritos" numa recente conferência da TPUSA (Turning Point USA) por causa de sua posição sobre o aborto, Jamie Bambrick, num excelente vídeo relacionado ao tema deste artigo, afirmou: "Então, embora seja verdade que não podemos equiparar 100% a plataforma de um partido político ao cristianismo, também não há ninguém fazendo isso. Não é isso que os cristãos de direita estão fazendo".
Dizer que alguém deve aceitar a terceira via porque as únicas alternativas são "adotar integralmente o pacote inteiro de um partido" (grifos meus) ou ser "apolítico" é uma maneira ardilosa de forçar você a um falso dilema. Você pode rejeitar esse falso dilema entendendo que é possível ter um lugar à mesa de um partido político sem endossar integralmente tudo o que esse partido faz ou defende.
Mais uma vez, é uma caricatura pintar o quadro de que rejeitar a terceira via significa ter de ser apolítico ou aderir completamente a um partido. Isso simplifica a análise ao extremo, mas o argumento continua sendo usado porque permite convenientemente a seus defensores insistir que, então, a alternativa deles deve ser a correta. Ao mesmo tempo em que se irrita com caricaturas da terceira via, a terceira via pratica suas próprias caricaturas.
Cultivando o não pensar
Fora de sua fortaleza, a terceira via cultiva o não pensar. Por exemplo, como vimos antes, um dos pontos principais de Keller em seu artigo de opinião é que "os cristãos são empurrados para duas opções principais". Os cristãos podem ser "apolíticos" ou aceitar "o pacote inteiro de um partido". Mas, no ensaio das zonas de Keller, os cristãos podem se enquadrar em seis lugares diferentes (Zonas 1, 2a, 2b, 3a, 3b ou 4). Assim, na prática, Keller argumenta que somos obrigados a aceitar o pacote inteiro no artigo de opinião, mas que basta aceitar uma parte do pacote no ensaio das zonas. Essa narrativa incoerente é sinal de não pensar; revela argumentos de conveniência.
Outro caso de não pensar ocorre quando se contrapõem questões que não deveriam ser contrapostas. Por exemplo, na Zona 2a, Keller diz: "Muito mais ênfase na família tradicional e na sexualidade do que em raça e justiça". Aqui, como em outros lugares (por exemplo, ao discutir o livro de Keller Generous Justice, John G. West afirma que "as menções de Keller à desagregação da família eram superficiais e desdenhosas"), Keller parece contrapor a família tradicional às questões raciais em vez de mostrar uma ligação clara entre as duas. Por exemplo, Thomas Sowell mostrou como o casamento reduz a taxa de pobreza entre os negros em comparação com "os americanos como um todo", o que o levou a perguntar: "Se a pobreza das famílias negras é causada pelo 'racismo sistêmico', será que os racistas abrem uma exceção para os negros casados? Será que os racistas sabem, ou se importam, se os negros são casados?". Em outras palavras, há uma ligação clara entre as questões raciais e a família tradicional, e elas não devem ser contrapostas. Pensar bem é entender que cuidar da família tradicional é cuidar das questões raciais.
Saindo de novo de Keller em busca de outros exemplos ilustrativos: escrevendo para o The Gospel Coalition, J. D. Greear argumenta que os cristãos devem "pregar todo o conselho de Deus, mas não dificultar para ninguém que se volta para Deus, sobrecarregando a mensagem com coisas que não são essenciais a ela". Mas não podemos ao mesmo tempo (a) pregar todo o conselho de Deus e (b) pregar apenas a mensagem essencial. A frase de Greear refuta a si mesma. É emotiva, mas irrefletida. Tampouco podemos (a) pregar todo o conselho de Deus e (b) esperar que todo esse conselho seja facilmente aceito pelos outros. Parte do conselho de Deus é difícil de aceitar, especialmente no início. O próprio Greear admite isso no começo do artigo, quando diz: "Devemos pregar todo o conselho de Deus, em toda situação, independentemente de sua impopularidade...". Independentemente de sua impopularidade! Tudo isso é muito confuso. Considerando os outros comentários de Greear sobre questões sociais e políticas, ele parece ter em mente uma via de mão única (e não uma terceira via). Não devemos pregar, ou ao menos devemos suavizar, o que ofende quem defende posições de esquerda sobre raça, sexo e "justiça social". Greear já orientou os cristãos a ter a mesma sensibilidade com posições de direita?
Cultivando o raciocínio circular
Fora de sua fortaleza, a terceira via é cultivada num solo de raciocínio circular. Seus defensores dizem que os críticos podem até ter razão, mas que esses críticos não estão atacando a verdadeira terceira via. Assim como o verdadeiro comunismo nunca foi experimentado, a verdadeira terceira via, ao que parece, também nunca foi.
Quando um cético da terceira via procura saber como os defensores da terceira via definem o termo, encontra respostas de acordo com a fortaleza, algo na linha de "seguir Jesus e as Escrituras". O cético apresenta evidências de que não é assim que a terceira via é posta em prática. Então os defensores da terceira via fazem vídeos ou escrevem artigos afirmando que aquelas aplicações não representam a verdadeira terceira via. E assim o cético volta para ver como a terceira via é definida e descobre, de novo, que ela é definida de acordo com a fortaleza, algo na linha de "seguir Jesus e as Escrituras". O cético apresenta evidências de que não é assim que a terceira via é posta em prática. E então os defensores da terceira via fazem vídeos ou escrevem artigos afirmando que aquelas aplicações não representam a verdadeira terceira via. E assim o cético volta para ver como a terceira via é definida... e assim por diante, em círculos. Ao que parece, reconhece-se a verdadeira terceira via porque ela segue Jesus, e sabe-se que ela segue Jesus porque é a verdadeira terceira via.
A terceira via parece razoável quando definida a partir de sua fortaleza, mas, quando examinada na prática, inclusive no exame de suas principais figuras, o estratagema que se encontra é evidentemente confuso, contraditório, condescendente e pouco convincente. Posta em prática, a terceira via cultiva a aceitação do enquadramento de esquerda, a equivalência moral, as caricaturas, o não pensar e o raciocínio circular. Por mais que seus defensores insistam que a terceira via é simplesmente seguir Jesus, quando se examina o que ela cultiva no pátio, a terceira via é tudo, menos aquilo que insiste ser.
¹ Nota da tradução: o livro foi publicado no Brasil como Justiça generosa: a graça de Deus e a justiça social (São Paulo: Vida Nova, 2013). Todas as citações de Keller neste artigo foram traduzidas do inglês.
Publicado originalmente em inglês na American Reformer: The Motte and Bailey of the Third Way. Traduzido e republicado com autorização.


