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Bíblia aberta sobre um suporte de madeira na mesa da Ceia, com a inscrição “This do in remembrance of me”

Liturgia e legislação

Igreja & Liderança/

Jared Bridges responde às objeções de que falar de política compromete o evangelho e mostra por que o silêncio do púlpito não é neutro.

“Pastor!”

O grito veio de algum lugar no fundo da congregação. “Não precisamos nos meter em política”, continuou o homem, em tom irritado. Nosso pastor estava avisando à congregação que havia guias eleitorais disponíveis no saguão de entrada, nos fundos da igreja, quando um dos membros decidiu que já tinha ouvido o bastante. “Eu dei uma olhada neles”, gritou ele, “e pareciam ter saído direto da cartilha do Partido Republicano. E Jesus não se importa se você é democrata ou republicano!”

O pastor conduziu a situação com habilidade e respondeu ao membro sem deixar que a coisa se agravasse. E, embora o bate-boca não tenha chegado às vias de fato, o culto daquele domingo de manhã terminou em clima constrangedor. Eu era adolescente na época e me lembro de ter pegado às pressas, no fim do culto, um daqueles guias eleitorais, agora envoltos em escândalo. Ele listava todos os candidatos que disputavam a eleição daquele ano, com suas respostas de “sim” ou “não” a certas questões de políticas públicas. Os guias não apoiavam ninguém; apenas mostravam a posição que cada candidato dizia ter sobre uma série de temas. Fiquei confuso. As chamadas questões polarizadoras, como o aborto, certamente recebiam destaque, mas não era como se algum dos partidos estivesse escondendo sua posição sobre o assunto.

Esse episódio, do início dos anos 1990, ficou gravado na minha memória, e nunca mais estive num culto em que algo tão simples quanto guias eleitorais no saguão provocasse uma reação tão dramática. Suspeito que explosões como essa sejam raras em parte porque muitos líderes de igreja simplesmente evitam a política por completo. Afinal, se guias eleitorais apartidários são capazes de tumultuar um domingo de manhã, o que não faria falar de política com mais profundidade?

Objeções fundamentais, falácias fundamentais

Uma das principais objeções a que a igreja trate de assuntos políticos é que o discurso político compromete o evangelho. Tomemos como exemplo os argumentos de Paul Tripp, voz popular nos círculos reformados e de quem este autor já se beneficiou. Num vídeo publicado em seu site, intitulado “O evangelho é político?”, Tripp mostra onde enxerga uma concessão:

A esperança do povo de Deus nunca está no poder político. Deixe-me repetir isso. Nosso maior poder não é político, e no momento em que você acredita que seu maior poder é político, que seu maior poder é a influência política, você vai comprometer o evangelho. Isso sempre acontece. Veja, nosso poder é o evangelho do Senhor Jesus Cristo, porque o evangelho da graça do Senhor Jesus Cristo tem o poder de fazer o que a política jamais, jamais poderia fazer: resgatar e transformar o coração de uma pessoa.
Deixe-me dizer de outro modo. As pessoas não são transformadas pela aprovação de leis. As pessoas são direcionadas e contidas pela aprovação de leis. Essa é uma diferença importante, crucial. Por exemplo, a aprovação de leis relativas à questão racial não acaba com o racismo. Hoje sabemos disso. Leis de direitos civis de grande alcance foram aprovadas nos Estados Unidos e ainda convivemos com racismo individual, corporativo e institucionalizado no país, porque o racismo é uma questão do coração.¹

Para Tripp, o efeito do evangelho se concentra no coração. Mas, à medida que o evangelho transforma o coração, ele não se irradia também para as demais partes do corpo? A mente fica intocada (Rm 12.2)? E os ouvidos, e também os pés (Rm 10.14-15)?

A verdade é que as pessoas são, sim, transformadas pela aprovação de leis. Embora não tenha acabado sozinha com o racismo nos Estados Unidos, a 13ª Emenda pôs fim à prática efetiva da escravidão de base racial. Mais recentemente, as restrições legais impostas durante a pandemia de covid mostram que leis de fato mudam as coisas, e nem sempre para melhor. Também é facilmente demonstrável que a suspensão do financiamento direto do aborto com dinheiro dos contribuintes salva vidas: pelo menos 2.678.274 desde 1976. Quando Tripp diz que as pessoas não são transformadas pela aprovação de leis, ele quer dizer que os corações não são transformados, e que são os corações que importam. Tripp tem razão ao afirmar que nosso maior poder não vem da política, mas essa ideia não precisa nos impedir de enxergar que o poder do evangelho transforma não apenas corações individuais, mas também comunidades e nações.

Outras vozes fazem coro a Tripp. Numa entrevista à C-SPAN em 2013, Russell Moore, então presidente da ERLC, respondeu à pergunta “De que maneira(s) o envolvimento político promove a missão da igreja?” com estas palavras:

Penso que existe um modo pelo qual a igreja pode se tornar um comitê de ação política, de maneira que se desvia da missão da igreja e destrói a missão da igreja. Mas penso que também existe um modo pelo qual a igreja pode dizer: “Não falamos sobre nada que consideramos político”. O que, na verdade, remete à velha pergunta que as Escrituras nos apresentam: “Quem é o meu próximo?”. Se nos importamos com o nosso próximo e com a sociedade, então precisamos falar sobre aquilo que diz respeito ao bem humano e ao florescimento humano.
Isso significa que não falamos sobre tudo. Há todo tipo de questão sobre a qual poderíamos discordar uns dos outros, e as Escrituras simplesmente não tratam dessas coisas. Penso que houve um tempo em que os cristãos evangélicos nos Estados Unidos se tornaram triunfalistas demais e passaram a ter uma posição cristã sobre a emenda do orçamento equilibrado, ou uma posição cristã sobre o veto parcial, ou uma posição cristã sobre ajuda externa, de maneiras para as quais não há nenhuma autoridade bíblica clara. Mas penso que há algumas questões fundamentais sobre as quais precisamos falar a partir das convicções que temos.²

Para Moore, a política claramente tem lugar na igreja, mas não toda a política. Há uma divisão, uma hierarquia que exclui aquilo sobre o que, segundo Moore, a Bíblia não fala. No entanto, em meio à infinidade de questões complexas do mundo atual, esse tipo de triagem poderia tornar praticamente qualquer assunto proibido. Mais adiante na mesma entrevista, Moore manifesta o desejo de uma política de imigração que preserve os princípios da segurança das fronteiras e de “um caminho para a cidadania” — algo que, como muitos poderiam argumentar, as Escrituras jamais abordam. Moore também chegou a afirmar, num ensaio sobre imigração e o evangelho, que Jesus foi um imigrante ilegal, ideia tão infundada que faz emendas de orçamento equilibrado e vetos parciais parecerem muito mais canônicos.³

Ou a Bíblia fala a todas as áreas da nossa vida, ou não fala. Uma igreja ancorada na palavra de Deus precisa segui-la aonde quer que ela conduza, seja ao aborto, seja ao orçamento equilibrado. Evitar a política por completo é entregar uma parte da nossa vida ao domínio de um mundo que, supostamente, não está sob a influência da igreja de Cristo. Os pastores não devem fazer pronunciamentos políticos montados em seus cavalos de batalha pessoais, mas tampouco devem apear de vez do cavalo em troca de um lugar aconchegante junto à fogueira.

Um enquadramento para a ação

Infelizmente, igrejas demais evitam o engajamento político por medo de serem acusadas de fazer concessões. Sim, haverá concessão se a igreja tratar apenas do político, mas uma concessão mais grave pode ocorrer se a igreja seguir o caminho da evasão litúrgica.

A evasão pode se apresentar como o caminho mais elevado, por exemplo: “Aqui falamos de Jesus e de amor, não de política”, ou “Jesus não é republicano nem democrata, e nós também não”. Esse apego a slogans ergue em torno da igreja fachadas que não são nem frias nem quentes e que podem até proteger uma congregação por algum tempo, mas um ajuste de contas acabará batendo à porta (veja Ap 3.14-22).

Vejamos, porém, o cenário por outro ângulo. Suponha que você seja pastor e alguém lhe faça a pergunta: “A igreja deve falar sobre política partidária?”. Antes de responder que não podemos apoiar nem condenar um partido em detrimento de outro, pense em como você poderia responder.

Diante de eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, o pastor evasivo talvez dissesse: “Não podemos tomar partido; os dois partidos são ruins”. Mas como esse mesmo pastor evasivo responderia se o partido em questão fosse o Partido Comunista Chinês? Ou se o candidato fosse Xi Jinping? A igreja deveria se opor a um partido que escraviza pessoas e persegue ativamente a igreja? Ou ao Partido Nazista? Seria errado a igreja de Cristo se opor a Hitler como chanceler?

Diante de cenários como esses, fica cada vez mais difícil defender a evasão. Se somos de fato um povo chamado pelo nome de Cristo, como poderíamos deixar de falar contra abusos políticos como a escravidão? Mas um argumento que funciona no extremo também funciona no cotidiano. Uma cosmovisão bíblica devidamente fundamentada pode moldar tanto as grandes questões quanto as pequenas. E, se nos é permitido falar contra abusos políticos, não poderia a Bíblia conter também, em suas páginas, alguns ideais políticos sobre os quais poderíamos falar de forma positiva?

Daqui para a frente

Vivemos agora numa época em que instituições públicas encarregadas de educar crianças não reconhecem a diferença entre um menino e uma menina. Vivemos num tempo em que matar um ser humano no ventre é só mais um dia de trabalho na assim chamada clínica. A definição de casamento, em nossos dias, deixou de ser a união de um homem e uma mulher por toda a vida, o alicerce da família, e passou a ser uma celebração de quem quer que você decida amar.

Essas não são questões fundamentalmente políticas, mas todas elas se desenrolam na esfera política. Já não há segurança alguma no silêncio, nem para o cristão individualmente, nem para a igreja. Não existe neutralidade. O opositor no fundo da congregação talvez sempre esteja à espreita, mas não deve ser ele a liderar. Os pastores precisam seguir o evangelho de Jesus Cristo aonde quer que ele os conduza: do coração humano à praça pública.

†

Notas

¹ Paul David Tripp, “Is the Gospel Political?”, Ask Paul Tripp, Paul Tripp Ministries, 19 de março de 2019, vídeo.

² Russell Moore, entrevista a John McArdle, Washington Journal, C-SPAN, 8 de julho de 2013, vídeo.

³ Russell Moore, “Immigration and the Gospel”, Russell Moore, 17 de junho de 2011.

Sobre o autor

Jared Bridges é pastor do ministério de família na Occoquan Bible Church, em Woodbridge, Virgínia. Formado pela Universidade do Tennessee e pelo The Southern Baptist Theological Seminary, é atualmente um dos vice-presidentes do Family Research Council, onde atua como editor-chefe do veículo de notícias e comentários da instituição, The Washington Stand.

Publicado originalmente em Christ Over All. Traduzido e republicado com autorização.

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