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Estrada sinuosa com faixa amarela dupla entre a mata

Fique no seu quadrado, pastor

Igreja & Liderança/

Dois pastores de Minnesota contam como levaram ao governador um chamado ao arrependimento e defendem a coragem profética no púlpito.

“Fique no seu quadrado, pastor”, disse o homem sentado à minha frente numa cafeteria do bairro. Até ali, nossa conversa havia girado em torno de política e de questões culturais da atualidade. Ele evidentemente (e sem nenhuma surpresa) tinha uma visão pietista do ofício pastoral. Na opinião dele, os pastores devem se concentrar em pregar e ensinar a Bíblia, mas tratar de questões políticas (sobretudo do púlpito) não lhes cabia. Embora eu não ache que tenha convencido meu amigo naquele dia, espero demonstrar que não só é apropriado, mas essencial, que os pastores falem com ousadia, em particular e em público, sobre todas as áreas da vida, inclusive a política e as questões importantes do momento. Antes de entrarmos na fundamentação, que tal começarmos com uma história?

Uma carta ao governo

No fim de abril de 2023, eu estava lendo na internet um artigo do World News Group, escrito por Levi Secord e intitulado “Um precedente perigoso para pais cristãos”.¹ O subtítulo dizia: “Em Minnesota, o Estado agora pode tirar os filhos dos pais que recusarem bloqueadores de puberdade e mutilação”. O artigo explicava que, poucos dias antes, o Senado de Minnesota havia aprovado um projeto de lei chamado Trans-Refuge Act [Lei de Refúgio Trans]. Como pastor bivocacional e sempre ocupado, eu não vinha acompanhando tão de perto, nos últimos tempos, o que acontecia na sede do governo estadual. À medida que lia o artigo, fui ficando indignado com aquilo que nossos políticos de esquerda estavam inscrevendo na lei estadual.

Depois de ler o artigo, pesquisei mais a fundo que outras obras diabólicas nosso Legislativo havia aprovado naquela sessão. O que encontrei foi igualmente perturbador. Outros dois projetos de lei tinham sido aprovados, entre eles o Reproductive Freedom Defense Act [Lei de Defesa da Liberdade Reprodutiva], que concedia amplas proteções a quem procura ou realiza abortos em Minnesota. O outro proibia a chamada “terapia de conversão”, impedindo assim psicólogos e outros profissionais de saúde mental de aplicar terapias destinadas a ajudar as pessoas a viver de acordo com seu sexo biológico.

Ao tomar conhecimento desses projetos, fiquei horrorizado e irado. Orei sobre o que eu poderia e deveria fazer. A medida mais imediata ao meu alcance parecia ser empunhar a caneta para a batalha. Decidi escrever uma carta ao governador Tim Walz para expressar profunda preocupação, denunciar o mal que seu governo vinha praticando e exortá-lo a se arrepender de sua impiedade. Terminei o primeiro rascunho da carta em 1º de maio de 2023. A princípio, imaginei que seria uma carta pessoal, assinada por mim e talvez por mais alguns pastores que pensassem como eu. Em 3 de maio, encaminhei a carta a Eric Anderson. Eric concordou com o teor da carta e perguntou se eu gostaria que ele a enviasse a outros pastores para revisão e comentários. O pastor Bob Dahlberg (Ely, Minnesota) deu sugestões úteis, e eu editei a carta de acordo com elas. Decidimos compartilhar a carta com outros pastores a fim de conseguir mais assinaturas. À medida que a fazíamos circular entre pastores de nossas redes, encontramos outros dispostos a se juntar a nós e tomar uma posição pública contra o que estava acontecendo. No fim, tínhamos 26 signatários.

Nosso plano era reunir o maior número possível de assinaturas e depois enviar a carta pelo correio ao governador no início de junho. Mas então as coisas tomaram um rumo inesperado. Recebi um e-mail de um homem chamado Tim Miller. Tim era ex-deputado estadual e, na época, trabalhava para o Pro-Life Action Ministries. Alguém lhe havia encaminhado uma cópia da carta, e ele queria muito mostrá-la a outros pastores a fim de angariar apoio. Tim me colocou em contato com Jeff Evans, do Minnesota Family Council e líder da Church Ambassador Network. Jeff me incentivou a entregar a carta em mãos ao governador (ou, ao menos, a deixá-la pessoalmente em seu gabinete) na sede do governo. Também me incentivou a escrever cartas semelhantes ao presidente do Senado de Minnesota e à presidente da Câmara dos Deputados de Minnesota.

Nosso encontro com Tim Walz

Conseguir uma reunião com o governador parecia pouco realista, se não impossível, mas Tim concordou em tentar. Providencialmente, quando era deputado, Tim tinha sido o único republicano a assinar um projeto de lei sobre transportes. O governador Walz lhe pediu que participasse de uma coletiva de imprensa, e Tim aceitou, desde que o governador reconhecesse que estava “devendo uma” [a Tim]. Por incrível que pareça, o governador concordou em nos receber.

Em 5 de julho, Tim Miller, Eric Anderson e eu tivemos quinze minutos com o governador em seu gabinete na sede do governo. Entregamos a carta ao governador Walz e lhe pedimos que a lesse ali mesmo. Ele leu. Conversamos principalmente sobre a questão do aborto. O governador foi cordial, mas pareceu indiferente ao nosso chamado ao arrependimento. Ele não se dispôs a reconhecer a autoridade de Deus sobre ele no cargo que ocupa.

Durante todo esse tempo, fui transparente com minha congregação sobre o que eu estava fazendo. Oramos juntos para que conseguíssemos a reunião com o governador e para que Deus lhe concedesse arrependimento. Oramos para que outros pastores estivessem dispostos a tomar uma posição pública em favor da justiça. Afixei a versão final da carta no mural da igreja. Eu cria que aquela era uma oportunidade importante de mostrar à minha congregação, pelo exemplo, como ser uma testemunha fiel na esfera pública.

Indo além

Também segui a recomendação de Jeff Evans e escrevi cartas semelhantes ao presidente democrata do Senado de Minnesota, Bobby Joe Champion, e à presidente da Câmara dos Deputados de Minnesota, Melissa Hortman. Vários outros pastores fizeram comentários, que incorporamos às versões finais. Numerosos outros pastores também se juntaram a nós como signatários dessas cartas. Entreguei-as nos gabinetes de Hortman e de Champion em 6 de maio de 2024, acompanhado de Levi Secord (e de meu filho Hans, de 15 anos).

Treze meses depois, Melissa Hortman e o marido foram assassinados a tiros. No domingo seguinte à morte dela, falei à minha congregação do púlpito e li parte da carta que havíamos escrito a ela: “Deputada Hortman, a senhora tem sangue nas mãos! Deus tem sido paciente com a senhora. A qualquer momento, ele poderia executar sua justiça sobre a senhora, mas, em sua bondade, tem esperado. Atente para a bondade dele, pois ela tem o propósito de conduzi-la ao arrependimento (Rm 2.4). Arrependa-se e mude seus caminhos antes que seja tarde demais!”. Do púlpito, condenei o hediondo assassinato de Hortman e de seu marido. Mas também aproveitei a oportunidade para tratar da legislação perversa que ela apoiara e para reconhecer a mão soberana de Deus, tanto em sua paciência para com os pecadores quanto em seu juízo sobre os ímpios.

— Pastor John Tramm

Reflexões de Eric: precisamos de coragem

O que você acabou de ler foi o testemunho de John sobre algo que alguns diziam ser impossível (inclusive meu próprio senador estadual, que me disse que o governador Walz “nunca trabalha nem se reúne com conservadores”). Olhando para trás, podemos testemunhar que foi um ato providencial de Deus. Podemos testemunhar pessoalmente que nosso governador (candidato democrata à vice-presidência em 2024) e outras autoridades ouviram tanto a advertência das Escrituras acerca do juízo quanto sua promessa de perdão caso se arrependessem diante dele. Dizemos isso com sóbria confiança. O que também nos deixa sóbrios é ver quão poucos pastores se dispuseram a assinar nossa carta e se juntar a nós nessa empreitada. Por que isso acontece? Por que, diante de leis que apoiam diretamente a conduta perversa e reprimem a liberdade e a justiça (Rm 1.16-32), tão poucos se pronunciam? Penso que tudo se resume à covardia, uma condição que se autojustifica e que argumento bíblico algum consegue vencer.

Como chegamos a esse ponto? Creio que a resposta também está no fato de que muitos reduziram o cristianismo a uma forma de expressão privada. No lar? Sim. Na igreja? Claro, seja cristão. Mas na política? Não, isso seria um mau testemunho. Acampamentos, escolas e organizações paraeclesiásticas cristãs seriam a esfera do nosso testemunho cristão. Pelo menos é o que diz a narrativa. Mas em Gn 1.1 vemos que somente Deus é o criador e governante de todas as coisas. Por isso, podemos fazer algumas afirmações simples sobre a verdade cósmica. Jesus Cristo veio salvar pecadores, mas também estabelecer seu reinado legítimo. Satanás vem como o grande deturpador e mentiroso, que procura edificar seu reino de trevas. Se enxergamos o reino de Deus apenas na igreja e no lar, deixamos de perceber a grande batalha espiritual que está em curso em todas as coisas. O reino de Deus abrange o mundo inteiro.

Política profética

Desafiamos todo cristão a ler a Bíblia de capa a capa, atento às passagens em que Deus, por meio de seus profetas e pastores, prega ao mundo ao redor e a seus governantes. Observe especialmente os Salmos e os Profetas Menores. Se o nosso testemunho deve ficar restrito à igreja, por que há uma advertência constante às nações, inclusive às pagãs e seculares, e não apenas a Israel (veja Sl 2, Jonas, Obadias etc.)?

Será que a obediência a Deus não significa que, embora não possamos testemunhar a toda tribo, nação e vizinhança, devemos fazê-lo naquelas em que habitamos e às quais pertencemos? Não é essa a nossa mordomia: proclamar a verdade do Governante do Universo onde quer que isso seja nossa responsabilidade? O que significa temer ao Senhor, e não aos homens? Descobrimos que os que se juntam a nós para falar a verdade às autoridades constituídas o fazem sem precisar de muito convencimento. Os que temem a Deus e procuram obedecer-lhe aproveitarão (se não criarem) as oportunidades de obediência que tiverem diante de si. É uma decisão de bom senso. Para os que caem na cilada do temor dos homens (Pv 29.25), nenhum argumento ou exemplo bíblico bastou. Esse é o problema moral que enfrentamos em muitos púlpitos hoje. O desejo de crescimento e de aplauso humano também significa silêncio nas arenas em que a verdade pode custar números, popularidade e influência.

“Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.” (Mq 6.8)

— Pastor Eric Anderson

Conclusão

Juntos, queremos deixar um último encorajamento e uma palavra de exortação a nossos irmãos que trabalham como pastores/presbíteros. Primeiro, os que ocupam cargos políticos são dignos do nosso respeito e das nossas orações (1Pe 2.17; Rm 13.7; 1Tm 2.1-2). Não devemos apenas denunciar políticas e plataformas perversas, mas também nos alegrar publicamente com nosso povo quando os políticos buscam a justiça e a retidão. Segundo, convém também a nós, pastores, ser os primeiros a nos arrepender. Se você deixou que o temor dos homens o levasse a se calar quando deveria ter falado (ou a falar quando deveria ter se calado), assuma isso e arrependa-se, ainda que tenha sido há anos. Confesse publicamente à sua congregação. Seja claro sobre o que fez de errado, o que o levou a agir por temor dos homens, como a graça de Deus o levou a enxergar e reconhecer isso e como você mudará sua conduta (Sl 32). Cremos nas bênçãos que vêm sobre uma congregação quando seus líderes confessam, se arrependem e mudam, e as temos visto pessoalmente. É assim que a igreja é reformada e renovada. Mãos à obra!

†

¹ Levi Secord, “A Dangerous Precedent for Christian Parents”, WORLD, 28 de abril de 2023.

Sobre os autores

Eric Anderson formou-se no Bethel College e, depois de trabalhar por um ano no Camp Shamineau, serviu, a partir de 2002, por sete anos como pastor auxiliar de jovens na Lincoln Evangelical Free Church, em Cushing, Minnesota. Enquanto estava lá, foi chamado e reconhecido como o primeiro pastor da Lifespring Reformed Baptist Church, em 2009.

Durante seus anos como pastor de jovens, Eric foi apresentado a maravilhosos irmãos e pregadores cristãos (a começar por John Piper, C. J. Mahaney, John MacArthur, R. C. Sproul, Michael Horton e Steve Lawson, e hoje Douglas Wilson, Joe Boot, Ardel Caneday e P. Andrew Sandin). Por meio deles, foi conduzido à humildade e cativado pelas gloriosas convicções acerca da soberania de Deus e da supremacia de Cristo em todas as coisas… e da suficiência da Bíblia para reformar toda a vida e o ministério.

Eric gosta de ler (especialmente história e biografias), garimpar em brechós com Miriam, jogar broomball, correr e passar tempo com as pessoas.

Eric é casado com Miriam, e eles têm nove filhos, um genro e duas netas.

John Tramm serve como presbítero/pastor na Radiant Life Church, em Marshall, Minnesota, desde 2022. É casado há 23 anos com Jen, pai de quatro filhos e tem um neto. John formou-se em Administração pela Bethel University em 2001 e concluiu um mestrado em Estudos Teológicos no Bethel Seminary em 2011. Ele e a família serviram como missionários no Alasca por seis anos antes de assumir sua função atual. Além de suas funções ministeriais, ao longo da carreira ocupou diversos cargos nos setores imobiliário, empresarial e de organizações sem fins lucrativos.

Publicado originalmente em inglês em Christ Over All. Traduzido e republicado com autorização.

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