
Levando a religião para a política: cinco coisas que os pastores devem à praça pública
Neutralidade no púlpito é falha pastoral? Michael Clary mostra, pela lei de Deus e pelas Escrituras, por que pastores devem falar à praça pública.
Nota do editor: Este artigo foi escrito no contexto político dos Estados Unidos, e algumas referências partidárias e culturais refletem essa realidade. O autor é batista e cita a Confissão Batista de Fé e Mensagem (2000); no mesmo sentido, veja a Confissão de Fé de Westminster, cap. XXIII (Do Magistrado Civil). Publicamos o texto na íntegra, com autorização.
Foi, ao mesmo tempo, o sermão mais útil e o mais polêmico que já preguei.
No outono de 2021, a Teoria Crítica da Raça (TCR) era um tema cultural em alta. Para o cristão comum, aquilo soava como assunto de debate na sala dos professores de uma faculdade comunitária. Mas, na realidade, era uma ideia perigosa que se espalhava pelo mundo evangélico e desviava muitos.¹ Então preguei um sermão sobre ela, explicando o que é, de onde veio e por que os cristãos devem rejeitá-la. Esforcei-me para ser objetivo, justo e equilibrado. Nada de sensacionalismo nem retórica raivosa, apenas os fatos.
Recebi mais retorno positivo sobre aquele sermão do que sobre qualquer outro que já havia pregado. Não apenas os comentários de "bom sermão, pastor" na saída, mas e-mails de gratidão, cartões de agradecimento escritos à mão e longas cartas de pessoas que eu nunca tinha visto e que assistiram pela internet.
Ao mesmo tempo, também recebi um e-mail crítico de alguns líderes da igreja, que me acusavam de "pregar política", embora eu não tivesse dito nada sobre políticos, eleições ou partidos. Disseram isso porque a TCR era uma questão cultural debatida na arena política. Alguns desses líderes estavam comprometidos com uma política de "nada de política no púlpito", o que tornava proibida a maior parte das questões culturais mais quentes.
Mas eu desconfiava, no fundo, de que, na verdade, eles queriam dizer nada de política conservadora no púlpito.
Um ano depois, essa desconfiança se confirmou quando preguei outro sermão contra várias obrigatoriedades de vacina contra a covid da era Biden. Essas exigências violavam a consciência de vários dos meus membros, e a nossa própria confissão doutrinária afirma a liberdade de consciência. Além disso, a jornalista Megan Basham havia publicado, no início daquele ano, uma reportagem bombástica intitulada "Como o governo federal usou líderes evangélicos para espalhar propaganda da covid nas igrejas", que documentava como autoridades federais recrutaram líderes evangélicos para promover a vacina. Ainda assim, depois daquele sermão, um dos meus líderes me acusou de usar mal as Escrituras para promover uma agenda política. Ironicamente, ele queria que a nossa igreja assumisse uma posição politicamente carregada a favor da vacinação obrigatória.
Isso deixou a questão clara para mim. Esses líderes não se opunham a posições políticas de esquerda, apenas às conservadoras. Todos eles já foram para outras igrejas, e isso não é mais um problema na minha.
Você poderia supor que esses líderes eram esquerdistas convictos, mas não é verdade. A simpatia deles pelo progressismo vinha de um pietismo equivocado: a crença de que os cristãos devem ficar acima da briga, manter as mãos limpas, evitar controvérsias e concentrar sua mensagem pública em ganhar almas. Pelo raciocínio deles, sinalizar simpatia pela esquerda poderia nos ajudar a alcançar mais incrédulos com o evangelho.
Uma publicação recente no X captou um sentimento parecido:
Nosso principal objetivo deve ser glorificar a Deus e compartilhar o Evangelho com os perdidos! Simples assim. Jesus nunca tentou mudar a cultura. Ele veio salvar os seus eleitos. Só isso... Então... Ame a Deus. Ame sua esposa. Ame seus filhos. Ame o próximo. Paulo nunca tentou mudar a política. Pedro nunca tentou mudar a política. Não, nem mesmo Jesus. A caminhada cristã NÃO é sobre mudar os Estados Unidos. Jesus não quer que nos envolvamos em empreendimentos infrutíferos.
Parece bastante humilde e piedoso, não é? Mas, se todos os cristãos dos Estados Unidos adotassem essa postura, os cristãos abandonariam completamente a arena política. Nenhum cristão buscaria cargo público. Nós nos concentraríamos exclusivamente em nossos lares, famílias e igrejas, deixando todos os conselhos escolares, delegacias, tribunais e câmaras municipais nas mãos de incrédulos. Não haveria cristãos lutando por leis justas e governantes retos, porque essas coisas são "empreendimentos infrutíferos". Quando os cristãos abandonam a praça pública, nós a entregamos a quem quer que esteja disposto a ocupar esses papéis. E, no momento, vemos um número crescente de ateus, secularistas, ativistas LGBTQ, socialistas, hindus e muçulmanos concorrendo a cargos públicos — e vencendo.
Cristo é honrado quando simplesmente os deixamos vencer?
O mito do púlpito neutro
Eis o desafio que enfrentamos em nossos dias. À medida que um número crescente de questões morais passa a ser considerado "político", os pastores que as abordam com clareza e convicção serão acusados de pregar política. Mas o pastor que evita essas questões em nome da unidade deixará seu povo mal equipado diante de algumas das questões mais urgentes do nosso tempo. E, se um pastor não fala porque tem medo de parecer político, Satanás politizará tudo até que ele não fale mais nada.
As questões políticas não vão desaparecer. Pelo contrário, estão aumentando, porque os costumes culturais e as instituições intermediárias falharam, e tudo acabou politizado. Como as famílias e as igrejas deixaram de moldar nossa compreensão comum do bem, o Estado entra para preencher o vazio. Questões políticas são questões morais, e questões morais são questões espirituais. Portanto, os pastores precisam tratar delas se quiserem ser fiéis a Deus e úteis aos seus rebanhos.
Além disso, as questões políticas são naturais ao que significa ser humano. Nos tempos modernos, as questões políticas são choques entre cosmovisões fundamentalmente irreconciliáveis. Num passado não muito distante, as divergências políticas comuns giravam em torno de alíquotas de impostos ou política comercial. Em nossos dias, democratas e republicanos não conseguem concordar sobre a definição de mulher. Uns acreditam que o aborto é assassinato; outros, que é um direito da mulher.
Os pastores não deveriam oferecer instrução bíblica sobre esses assuntos? Dois membros da igreja podem simplesmente "concordar em discordar" sobre questões morais tão urgentes? Não se trata de divergências sobre a cor do carpete da igreja. São perguntas sobre a própria natureza e a própria realidade. Um pastor que pregue fielmente Gênesis 1 vai acabar soando político, queira ou não. Em vez disso, as igrejas acabam fazendo séries de sermões do tipo "no cinema".
O veneno está no "-ismo"
Para voltarmos a caminhar na direção certa, precisamos recuperar a verdadeira piedade, uma ideia antiga que foi esquecida em nossos dias. Distingo a verdadeira piedade do pietismo, que enfatiza demais as realidades imateriais e espirituais em detrimento das realidades materiais e físicas. Um homem pietista talvez diga: "Vamos nos concentrar em ganhar almas e não nos envolver em assuntos mundanos". Já um homem verdadeiramente piedoso pode compartilhar o evangelho e, ao mesmo tempo, envolver-se na esfera civil.
O problema do pensamento pietista é presumir que "espiritual" significa "não físico". Mas, biblicamente falando, ser "espiritual" significa ser guiado e movido pelo Espírito Santo, obedecendo aos mandamentos de Deus revelados na Bíblia. O homem verdadeiramente espiritual não limita seu dever cristão a coisas explicitamente religiosas, como devocionais, listas de oração e leituras bíblicas (todas boas coisas, aliás!), mas procura aplicar suas convicções cristãs a todas as áreas da vida.
A palavra latina pietas designava a virtude de honrar as próprias obrigações para com Deus, a família e o povo. Como os antigos a entendiam, a verdadeira piedade era uma virtude pública, em que se olha para cima, para Deus; para trás, para os pais; e para a frente, para os filhos. Vemos um bom exemplo em Neemias 4, quando ele anima os trabalhadores em Jerusalém a segurar a pá numa mão e a espada na outra, conclamando-os: "Lembrai-vos do Senhor, grande e temível, e pelejai pelos vossos irmãos, vossos filhos, vossas filhas, vossa mulher e vossa casa" (Ne 4.14). De modo semelhante, G. K. Chesterton disse que não lutamos porque odiamos o que está à nossa frente, mas porque amamos o que está atrás de nós.²
Mas, nos tempos modernos, a piedade perdeu sua dimensão pública, encolhendo nossos deveres cristãos à esfera interior e descartando as preocupações públicas como mero mundanismo. Isso é pietismo. Assim, um cristão "pietista" pensa ser mais piedoso por não se envolver em política, que ele descarta como "mundana". Mas, ao fazer isso, entrega a praça pública a incrédulos que não têm nenhum escrúpulo em transformar a própria moralidade em lei.
Em poucas palavras: a piedade é boa, o pietismo é ruim; o veneno está no "-ismo".³
O custo de abandonar a praça pública
Como muitos cristãos evangélicos abandonaram a praça pública nos últimos anos, estamos gravemente sub-representados em relação ao nosso número expressivo. Embora sejamos cerca de um quarto da população dos Estados Unidos, nosso quadro de líderes políticos, juízes e intelectuais públicos é bem escasso. Talvez porque fizemos o que as elites evangélicas nos mandaram fazer: tratar o poder como ídolo e ver a política como uma distração do "verdadeiro" trabalho do Reino. Foi um erro grave. A fidelidade a Deus exige verdadeira piedade, o que significa que precisamos ser mais políticos, e não menos.
Alguns leitores talvez levantem uma objeção aqui: Cristo deu à igreja as chaves, não a espada, e qualquer pastor que se pronuncie sobre assuntos políticos ultrapassou os limites do seu ofício. Mas, quando alguém manda o pastor "ficar na sua", esse homem ou essa mulher está usando a Bíblia para amordaçar a Bíblia. Se deixarmos as Escrituras guiarem toda a nossa fala, há pelo menos duas respostas a essa objeção equivocada.
Primeiro, as Escrituras são inevitavelmente políticas, de modo que não há como pregar fielmente "todo o desígnio de Deus" (At 20.27) sem acabar tratando de questões que serão consideradas políticas. Já ouvi dizer que as Escrituras falam diretamente de algumas coisas e indiretamente de todo o resto. Um pastor fiel deve sentir-se livre para aplicar a Palavra de Deus a muitas questões que talvez não sejam tratadas diretamente nas Escrituras, lançando a luz da Bíblia onde quer que isso seja útil.
Segundo, as chamadas "questões políticas" de nossos dias são, na verdade, questões de cosmovisão que determinarão o futuro do nosso país. Como tudo hoje é politizado, o pastor que evita tratar delas está terceirizando o seu dever a comentaristas, podcasters e influenciadores de redes sociais. Isso não é pastoreio fiel.
Charles Spurgeon observou certa vez: "Ouço muitas vezes dizerem: 'Não tragam a religião para a política'. É exatamente ali que ela deve ser trazida, e posta diante de todos os homens como sobre um candelabro".⁴ Isso era verdade em 1881 e continua verdadeiro hoje. Portanto, a distinção entre as chaves e a espada deve orientar como os pastores falam, e não se falam.
Cinco coisas que os pastores devem fazer
Para ajudar os pastores a recuperar sua voz profética na arena política, proponho cinco coisas que todo pastor deve fazer para começar.
Primeiro, os pastores devem pregar a verdadeira piedade
Homens de verdadeira piedade são estadistas, santos que têm uma fé firme em Deus e estão dispostos a lutar por suas famílias, igrejas e comunidades. Sua piedade privada é marcada pelo compromisso com as Escrituras, a oração, a família e a vida da igreja. Sua piedade pública é marcada por assumir a responsabilidade pessoal de afirmar a retidão e a justiça de Deus em sua comunidade e em seu país.
Em 1 Timóteo 2.1-2, Paulo dá uma instrução útil sobre a oração pelos governantes civis. Ele nos manda orar "em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito". Quando os governantes fazem bem o seu trabalho, promovem condições de paz em que a fé cristã pode florescer e crescer. Assim, os cristãos piedosos têm interesse na política, porque o bom governo preserva a nossa capacidade de viver plenamente nossas convicções cristãs.
Isso não é diferente do que afirma a Fé e Mensagem Batista (2000) no Artigo XV, sobre a ordem social: "Todos os cristãos têm a obrigação de buscar tornar a vontade de Cristo suprema em sua própria vida e na sociedade humana [...]. Todo cristão deve procurar trazer a indústria, o governo e a sociedade como um todo sob o domínio dos princípios da justiça, da verdade e do amor fraternal".⁵
Segundo, os pastores devem pregar como a consciência da sociedade
Os pastores fazem isso sobretudo proclamando a lei de Deus a respeito das questões urgentes da cultura e instruindo os governantes civis sobre o seu dever de manter a justiça e a retidão.
No que diz respeito às questões culturais, os Dez Mandamentos formam o alicerce do ensino bíblico sobre o certo e o errado.⁶ Exposições úteis da lei de Deus podem ser encontradas em vários catecismos reformados, como o Catecismo de Heidelberg, o Catecismo Maior de Westminster, o Catecismo Batista e o Catecismo de Genebra, de Calvino. Essas ferramentas ajudam a equipar o pastor para se pronunciar sobre questões morais e culturais, pois apresentam cada mandamento, explicam suas obrigações e proibições e oferecem uma breve justificativa.
Por exemplo, um pastor não deve hesitar em denunciar o aborto como assassinato, porque é proibido pelo sexto mandamento. Um pastor não deve hesitar em condenar toda forma de pecado sexual, incluindo a pornografia, a fornicação, o adultério, a homossexualidade, o transgenerismo e a perversidade do orgulho LGBTQ, que celebra pecados que a Bíblia condena, porque todos eles são proibidos pelo sétimo mandamento. Um pastor pode falar contra a tributação injusta e a corrupção no governo, explicando que são uma forma de roubo proibida pelo oitavo mandamento. Pregar sobre essas questões promove o bem público.
Deixe-me fazer uma advertência. Como regra geral, os pastores devem pregar sobre questões culturais ou políticas quando forem pertinentes ao texto que estão pregando. As exceções a essa regra podem ser momentos culturais de tamanha importância que muitas pessoas esperam ouvir uma instrução bíblica a respeito. Muitos pregadores fizeram isso, por exemplo, depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Eu mesmo fiz isso depois do assassinato de Charlie Kirk. Nesses momentos de crise nacional, o povo de Deus precisa que seus pastores liguem o mundo à Palavra. Mas, na maior parte do tempo, a Palavra deve definir a pauta. O púlpito não deve se transformar num comentário semanal sobre o que estiver no noticiário. Isso mina a primazia da Palavra de Deus e faz do pregador mais um comentarista e menos um profeta.
Alguém pode dizer que pregar a lei de Deus não muda o coração e que, portanto, devemos pregar apenas o evangelho. Mas, de novo, essa objeção usa mal uma verdade bíblica. Pregar a lei de Deus é necessário para estabelecer a realidade do pecado, do qual os homens precisam se arrepender para serem salvos. A santa lei de Deus fere a consciência dos homens e os orienta para o que é bom e reto. A pregação da lei sozinha não pode mudar o coração, mas pregar a lei é necessário para mostrar nossa necessidade do evangelho, que de fato muda o coração. É isso que Paulo quer dizer ao falar em utilizar a lei "de modo legítimo" (1Tm 1.8-11).
Não só isso: mudar corações não é a única coisa com que os cristãos devem se importar. A lei moral é a revelação singular do padrão de justiça de Deus e obriga universalmente todos os homens. Os mandamentos bíblicos regem a maneira como tratamos o próximo e devem ser pregados, defendidos e aplicados, quer a pessoa seja regenerada, quer não. Temos leis contra o homicídio e punimos homicidas, independentemente do estado de suas almas. Desse modo, boas leis são necessárias para uma cidadania virtuosa, que é necessária para o bom funcionamento da sociedade. Uma sociedade justa sustenta o bem e pune o mal (1Pe 2.13-14). Deuteronômio 19.19-20 diz: "Assim, eliminarás o mal do meio de ti; para que os que ficarem o ouçam, e temam, e nunca mais tornem a fazer semelhante mal no meio de ti". Em termos simples: a lei não pode mudar o coração, mas pode refrear os sem coração. E os pastores não devem ter medo de pregar todo o desígnio de Deus, incluindo as suas leis.
Mais ainda: como há cristãos que empunham a espada, e outros que precisam empunhá-la, eles precisam saber o que Deus exige. Por isso, a respeito do magistrado civil, Paulo o chama de "ministro de Deus para teu bem" (Rm 13.4). Um "ministro" precisa saber o que o seu senhor exige. De quem é a tarefa de instruí-lo? Como ministros da Palavra, os pastores certamente têm a responsabilidade de instruí-lo (e, por extensão, a todos os demais) sobre os deveres do magistrado civil.
Terceiro, os pastores devem falar com precisão sobre os partidos políticos e seus programas
Os dois partidos têm seus problemas, mas não são moralmente equivalentes. O programa do Partido Democrata de 2024 endossou explicitamente o aborto durante os nove meses de gestação, intervenções transgênero em crianças e a redefinição da legislação de direitos civis para incluir orientação sexual e identidade de gênero.⁷ Essas posições não são apenas diferentes do cristianismo; são ativamente hostis a ele.
Isso não quer dizer que os republicanos sejam nossos salvadores. Quando os republicanos apoiam o mal, os pastores devem denunciá-los. Mas o Partido Democrata defende esses males como objetivos declarados, ao passo que o Partido Republicano se opõe a eles (ao menos no papel).⁸ A agenda dos democratas representa um suicídio civilizacional, e os republicanos são o único partido viável que se coloca em seu caminho. O pastor que trata os dois partidos como moralmente equivalentes em nome do decoro do púlpito está desinformando o seu povo.
Alguns podem objetar que os pastores não devem condenar o Partido Democrata porque isso prenderia a consciência do povo de Deus numa questão de liberdade cristã. Bobagem. Programas partidários existem por uma razão. Servem para informar os eleitores sobre a agenda mais ampla que estão apoiando quando votam num candidato daquele partido. Os programas partidários são usados para recrutar candidatos, para impor padrões de votação depois que eles assumem o cargo e para formar a consciência dos eleitores que os apoiam. Em outras palavras, os programas partidários representam uma agenda moral que precisa ser examinada à luz das Escrituras. Isso não significa que o pastor deva indicar ao seu povo em quem votar. Mas, em 2026, é negligência pastoral simplesmente dizer às pessoas "votem como quiserem". Votar no Partido Democrata significa entregar a espada do Estado aos que são a favor de massacrar bebês no ventre e mutilar crianças.
Quarto, os pastores devem estar dispostos a denunciar os pecados das autoridades públicas, nominalmente, quando necessário
Pecados públicos exigem correção pública. O profeta Natã confrontou o rei Davi face a face por causa do adultério e do homicídio (2Sm 12). Daniel disse a Nabucodonosor: "põe termo, pela justiça, em teus pecados" (Dn 4.27). João Batista disse a Herodes que o seu casamento era ilícito, e literalmente perdeu a cabeça por isso (Mc 6.18). O apóstolo Paulo dissertou diante do governador Félix "acerca da justiça, do domínio próprio e do Juízo vindouro" (At 24.25).
Além disso, a autoridade pública não precisa estar presente para ouvir a repreensão, porque a repreensão serve para a instrução de todos, não só dele (ou dela). Quando Jesus fez uma declaração abertamente política insultando Herodes, chamando-o de "essa raposa" (Lc 13.32), Herodes não estava presente para ouvi-la. Jesus disse isso aos fariseus, na presença dos discípulos, e isso foi registrado nas Escrituras para nosso proveito. O mesmo princípio se aplica à denúncia pública da maldade dos governantes civis.
Quinto, os pastores devem pregar o evangelho de Jesus Cristo, chamando todos ao arrependimento de todos os seus pecados, públicos e privados
A Fé e Mensagem Batista 2000 diz: "Os meios e métodos usados para a melhoria da sociedade e o estabelecimento da justiça entre os homens só podem ser verdadeira e permanentemente úteis quando estão enraizados na regeneração do indivíduo pela graça salvadora de Deus em Jesus Cristo".⁹
Essa frase indica a busca de dois objetivos simultâneos: (1) a melhoria da sociedade e o estabelecimento da justiça e (2) a regeneração do indivíduo pela graça salvadora de Deus. A busca do primeiro objetivo não depende da conclusão do segundo. Podemos e devemos fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Os pastores devem trabalhar para melhorar a sociedade e estabelecer a justiça, ainda que os homens não estejam convertidos, e a nossa contínua pregação do evangelho é necessária para que esses avanços sejam "verdadeira e permanentemente úteis". Assim, a igreja pode exercer sua influência tanto na praça pública quanto no quarto de oração.
Uma coisa que os pastores NÃO devem fazer
Embora os pastores devam cumprir os deveres descritos acima, há uma coisa que um pastor NÃO deve fazer: os pastores não devem pregar como comentaristas políticos. Deixe-me explicar.
Os pastores devem lembrar que o fim último da pregação é a glória de Deus e a edificação dos santos. Os pastores muitas vezes falam com voz "profética", porque transmitem uma palavra autorizada de Deus ao seu povo. A diferença entre um profeta e um comentarista é o propósito da mensagem. O objetivo principal do comentarista é oferecer comentário político sobre as questões do momento. O objetivo principal do profeta é anunciar uma palavra divina que glorifique a Deus e edifique os seus santos. Essa distinção precisa ser mantida.
A maioria dos pastores não está preparada para falar com autoridade sobre questões complexas de políticas públicas, muitas das quais nem são relevantes para o dia a dia do seu povo. Se um pastor lê este ensaio e começa a pregar sobre política comercial, OTAN ou regulamentação federal antitruste, ele não entendeu o ponto. Ele é embaixador de Cristo, que representa os interesses do Reino de Deus na praça pública. O púlpito pode tratar de questões culturais, mas deve, em última análise, apontar o coração das pessoas para Deus, que é soberano sobre a política, as culturas, as nações, os governantes e os acontecimentos futuros, e a quem todos os homens um dia prestarão contas. Se os sermões dele soam como discursos de palanque, algo deu errado. O púlpito não é lugar para desabafos políticos.
Eis o que me preocupa. Tenho visto pastores supostamente conservadores usarem seus púlpitos para pregar sobre as injustiças da nossa sociedade de maneiras que parecem ter o objetivo de provocar raiva e ressentimento em suas congregações. Parece que seus sermões são pregados para a audiência do YouTube, e não para as pessoas da congregação. Pastores de direita podem desabafar com raiva suas frustrações com a esquerda progressista de maneiras que incentivam o seu povo a alimentar pecaminosamente suas queixas, seu ódio e seu ressentimento.
É certo que os jovens (e os mais velhos também) têm razões legítimas para se irritar com o que a esquerda está fazendo com o nosso país. Estão frustrados porque não conseguem encontrar uma mulher para casar que não seja uma feminista enrustida. Não conseguem comprar uma casa. A gasolina está cara demais. As poucas vagas de emprego vão para imigrantes ilegais. Os jovens brancos ouviram a vida inteira que são racistas, machistas e maus, e que merecem todas essas dificuldades e outras mais. Ainda assim, os pastores devem transformar essas brasas de frustração num incêndio de fúria? Não!
Jesus tem um nome para homens que fazem isso: mercenários. Mercenários são aqueles que "não [têm] cuidado com as ovelhas" (Jo 10.13). Estão mais interessados em aumentar sua audiência do que em pastorear as almas dos santos confiados aos seus cuidados. Todo pastor prestará contas do rebanho sob sua responsabilidade (Hb 13.17). Nenhum pastor é chamado a pastorear a internet inteira.
Os pastores devem pregar sobre questões culturais porque o povo de Deus precisa de orientação bíblica para atravessar os tempos loucos em que vivemos. Os pastores devem compreender as aflições do seu povo e conduzi-lo a reagir com retidão, ainda que seja com ira justa. As Escrituras nos dizem: "Irai-vos e não pequeis" (Ef 4.26), e também que a ira do homem não produz a justiça de Deus (Tg 1.20). É fácil satisfazer a carne alimentando ressentimento e raiva, mas é difícil ensinar as pessoas a canalizar sua raiva legítima de maneiras produtivas e que honrem a Deus, como pressionar seus representantes ou até candidatar-se a um cargo público. Os pastores devem pregar sobre questões políticas na medida em que sejam relevantes para o seu povo, mas nunca devem subordinar o Reino de Deus à política e à cultura. Afinal, o próprio Jesus nos ensinou: "buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça" (Mt 6.33).
Em última análise, todo pastor é um homem sob uma incumbência divina (2Tm 4.1). Ele deve pregar a lei de Deus, o evangelho de Jesus Cristo, o perdão dos pecados, o poder do Espírito Santo e a esperança da vida eterna que nos aguarda. Nossa política conservadora deve, em última instância, brotar da nossa lealdade a Cristo. Teremos de responder a ele por como vivemos como cristãos, e não meramente como conservadores. Lutamos por nossas famílias, nossa igreja, nossas comunidades e nossa pátria porque Cristo nos chama a isso, e não meramente porque isso se alinha à nossa política conservadora.
Conclusão
Olhando para trás, aquele sermão sobre a TCR foi um ponto de virada importante no meu ministério. Ele expôs uma fissura na minha igreja quanto ao que as pessoas esperavam do púlpito. As cartas e os cartões de encorajamento que chegaram depois tinham todos um tema parecido: "Isso foi útil". O cristão comum ouve falar de questões políticas a semana inteira. É bombardeado com propaganda esquerdista no trabalho, nas redes sociais, no noticiário e na sala de aula. Alguns nem tinham categorias para saber como pensar sobre aquilo. Tinham apenas uma vaga sensação de que algo estava "errado". Mas, quando preguei sobre o assunto, tudo se encaixou. Mais do que isso, mostrou-lhes que podiam encontrar respostas na Palavra de Deus, que é toda suficiente. Dei-lhes categorias bíblicas e textos explícitos para ajudá-los a atravessar uma questão confusa e, pela graça de Deus, isso os edificou em sua santíssima fé. Mas não estou sozinho.
Mais cedo ou mais tarde, todo pastor enfrentará um ponto de virada como esse e, quando se pronunciar, provavelmente enfrentará os mesmos problemas que eu enfrentei. Algumas pessoas sentirão que alguém finalmente acendeu a luz, e verão o mundo com mais clareza. Outras, porém, não vão gostar nem um pouco. Vão acusá-lo de ser político ou de causar divisão. O pastor fiel o fará mesmo assim, porque, embora as reações sejam muito diferentes, ele está ajudando os dois grupos. Ao primeiro, dá luz para ver melhor o mundo. Ao segundo, traz a sua discordância para a luz, onde ela pode ser tratada abertamente.
No fim, Deus vê. E, como Pedro disse aos pastores: "Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória" (1Pe 5.4).
†
Notas
¹ Em 2024, a Christ Over All dedicou um mês inteiro a esse assunto.
² G. K. Chesterton, Illustrated London News, 14 de janeiro de 1911.
³ No meu livro de mesmo nome, chamo esses erros de "Teologia de Perdedor", porque eles treinam os cristãos a ser passivos, aceitando o recuo e a derrota como a postura da fidelidade e da humildade cristãs. Isso produz homens devotos em particular, mas inúteis em público. Michael D. Clary, Loser Theology: Why the Weak Will Not Inherit the Earth (Canon Press, 2026).
⁴ C. H. Spurgeon, "The Candle" (sermão nº 1594, pregado em 24 de abril de 1881, no Metropolitan Tabernacle, Newington), em The Metropolitan Tabernacle Pulpit, vol. 27 (Passmore & Alabaster, 1881).
⁵ Convenção Batista do Sul, Baptist Faith and Message 2000, art. XV, "The Christian and the Social Order" (O cristão e a ordem social).
⁶ Foge ao escopo deste ensaio entrar nos diversos debates sobre os usos da primeira e da segunda tábua. Para os meus propósitos aqui, faço apenas a observação geral de que os Dez Mandamentos são relevantes e úteis como base para entender e ensinar a moralidade pública.
⁷ Comitê Nacional Democrata, "2024 Democratic Party Platform", adotado em 19 de agosto de 2024.
⁸ Comitê Nacional Republicano, The 2024 Republican Party Platform (2024), PDF.
⁹ Convenção Batista do Sul, "XV. The Christian and the Social Order", Baptist Faith and Message 2000, acesso em 28 de setembro de 2026. Baptist Faith and Message 2000 — Article XV.
Publicado originalmente em inglês na Christ Over All: Bringing Religion into Politics: Five Things Pastors Owe to the Public Square. Traduzido e republicado com autorização.


