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O mito e a formação de homens: recuperando as histórias antigas que fizeram o Ocidente

Casamento e Família/

Por que os meninos precisam de heróis? Aristóteles, Calvino e Tolkien mostram como as histórias antigas formam coragem, honra e dever.

Nota do editor: Este artigo foi escrito no contexto dos Estados Unidos, e muitas referências históricas e culturais (o Álamo, os Pais Fundadores, a colonização da América do Norte) refletem essa realidade. Publicamos o texto na íntegra, com autorização.

Os homens que moldaram a ordem do pós-guerra se propuseram a derrubar os nossos mitos fundadores e erguer outros no lugar. A revolução cultural deles foi terrivelmente eficaz. Durante a maior parte da nossa história, as crianças liam sobre homens maiores que a vida, que cristianizaram o Novo Mundo e arrancaram a civilização do meio da selva. Hoje, as nossas lendas são reapresentadas como tiranos, senhores de escravos e colonizadores. Parece que alguns ainda entendem o valor dos heróis; eles só odeiam os nossos.

Se quisermos restaurar o espírito da América, precisamos começar reconstruindo a nossa mitologia fundadora a partir dos primeiros princípios, a começar por explicar por que essas histórias importam.

Como a virtude é formada

Aristóteles argumenta na Ética a Nicômaco que a virtude é construída pela ação habitual. O homem é virtuoso porque faz coisas virtuosas, assim como o construtor se aperfeiçoa no ofício construindo. Não basta, porém, simplesmente agir por hábito; é preciso ordenar devidamente os hábitos. O construtor poderia construir mal durante vinte anos e não ser melhor do que no dia em que começou. A qualidade das ações de alguém é julgada segundo o meio-termo, evitando tanto o excesso quanto a falta. A verdadeira coragem, por exemplo, está em algum ponto entre a covardia e a temeridade.

Igualmente importante é a maneira como agimos. Tomás de Aquino, comentando a Ética a Nicômaco, afirma que "depois que o hábito da virtude foi formado, tais operações são realizadas com deleite, porque o hábito existe como uma espécie de natureza". Aquino observa que o homem virtuoso se deleita no bem e que os seus hábitos se tornaram reflexos. Portanto, a forma como os hábitos de alguém são formados importa muito.

Por fim, Aristóteles diz que é importante que a criança seja educada cedo, "de modo a se deleitar e a sofrer com as coisas devidas", pois assim formamos bons hábitos desde a juventude.

Por mais úteis que sejam essas definições, elas servem muito pouco às crianças, justamente as que mais precisam delas. Como um menino determina o meio-termo da coragem com o lobo diante dele? Ele fica e luta, ou corre em busca de ajuda? Essas escolhas nem sempre são óbvias, e não há uma regra simples em que se apoiar. Aristóteles responde que o meio-termo é aquilo que o "homem de sabedoria prática" julgar que é. Mas a sabedoria leva anos para se desenvolver, e o lobo está aqui agora. Então o menino procura um homem de discernimento comprovado e segue o seu exemplo.

Isso levanta a pergunta: quem é digno de ser imitado?

"Beowulf lutando contra o dragão", de Rockwell Kent (1931)

A mitologia como instrução moral

O homem aristotélico é encontrado mais facilmente nas histórias que contamos a nós mesmos. Isso é mais evidente na ficção, em que homens como Beowulf encarnam o espírito anglo-saxão. Mas homens reais também são mitificados, tanto para honrar a sua memória quanto para colocá-los diante de nós como exemplos. Contamos histórias de grandes homens para que nós também possamos ser grandes.

Nessas histórias, a filosofia mais intrincada é destilada até que o seu sentido se torne simples, até para uma criança. São Jorge mata o dragão porque é um cavaleiro, e cavaleiros protegem os inocentes dos seres malignos. Entendemos o dragão como um grande mal, mas por quê? Primeiro, porque é perigoso: o inimigo da humanidade desde o Éden, apresentado aqui na sua forma mais terrível. Além disso, é a ganância e a malícia feitas carne, pois na sua caverna estão tanto o tesouro quanto os ossos dos que o buscaram. Ele precisa ser combatido porque os homens bons fazem o que é certo, ainda que seja perigoso. A mensagem passa a ser algo como: "você tem o dever de enfrentar os males terríveis desta vida; então enfrente-os e deixe que Deus determine o resultado".

Para um menino pequeno, isso basta. Tendo olhado o mal de frente (ainda que na página de um livro), ele agora tem um modelo de coragem, honra e dever. O que ele ainda não percebe é que, ao brincar de São Jorge, está também reencenando uma história ancestral. Está tirando a sua virtude da mesma fonte de que tiraram os seus antepassados, dos reis aos camponeses. A história de Jorge é a história do próprio Ocidente, em que homens virtuosos submeteram o caos pagão à ordem cristã.

É isso que significa viver historicamente: receber o que os seus pais construíram, acrescentar algo e transmiti-lo aos seus filhos. Essas histórias são o tendão que nos une aos nossos pais e que unirá os nossos filhos a nós.

O mito americano

A nossa herança cultural remonta à Europa pré-cristã. Salústio relata que Quinto Fábio Máximo e Cipião Africano diziam que, ao contemplar as máscaras de cera dos seus antepassados, "o coração se lhes inflamava violentamente para a virtude". As suas próprias batalhas contra Aníbal na Segunda Guerra Púnica seriam imortalizadas.

Como se sabe, os nossos próprios Pais Fundadores se viam como romanos modernos. Washington era chamado de "Cincinato americano", para lembrar que os homens devem ser ao mesmo tempo cidadãos e soldados e que a virtude pode vencer o desejo vil de poder. Era comum ver ensaios assinados por "Bruto" ou "Fábio" durante os debates da ratificação. Nathan Hale, diante da forca, é lembrado por ter dito: "Só lamento ter apenas uma vida para perder pelo meu país". As palavras de Hale são uma referência direta à peça Catão: uma tragédia, de 1713, uma das mais populares nas colônias americanas.

Muitas lendas americanas perderam força na era moderna. Certamente alguns ainda se lembram do Álamo, mas as histórias de Jim Bowie e Davy Crockett estão se apagando. Não faz muito tempo, os meninos corriam pela mata armados com revólveres de espoleta, caçando foras da lei como Wyatt Earp. Essas histórias foram destroçadas pelos nossos supostos superiores culturais porque eram úteis demais para formar homens americanos.

O argumento reformado em favor da criação de mitos

As histórias mais antigas do Ocidente são pré-cristãs, e a igreja há muito discute o que fazer com elas. Como Alcuíno perguntou, numa frase famosa, em 797: "Que tem Ingeld a ver com Cristo?"

A Escritura oferece uma resposta. Escrevendo a Tito, Paulo cita o poeta pagão Epimênides em sua acusação contra os cretenses: "Foi mesmo, dentre eles, um seu profeta, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos. Tal testemunho é exato" (Tt 1.12-13). João Calvino, comentando o versículo, vai além: os que rejeitam os autores pagãos são supersticiosos, pois "toda verdade vem de Deus; e, por conseguinte, se homens ímpios disseram algo verdadeiro e justo, não devemos rejeitá-lo, porque veio de Deus".

Alguém poderia objetar que Paulo não vê utilidade alguma no mito. Ele adverte Tito contra as "fábulas judaicas" (gr. mythoi) logo no versículo seguinte, e a palavra tem conotação negativa ao longo das epístolas pastorais. Mas a preocupação de Paulo é com o mito apresentado como doutrina (mandamentos de homens ou contendas sobre a lei), não com a arte de contar histórias.

Em Mythopoeia, Tolkien escreve que a arte de criar mitos é um reflexo de Deus: "Ainda criamos pela lei pela qual fomos criados". O homem subcria porque foi primeiro criado à imagem de Deus. Tolkien entendia os mitos pagãos como uma refração da luz de Deus, um fragmento incompleto de uma fonte verdadeira. Comentando especificamente Beowulf, ele trata de um antigo debate da igreja: "Devemos ou não devemos entregar os antepassados pagãos à perdição?"

A resposta de Tolkien é que essas histórias, por mais pagãs que sejam, ainda estão impregnadas de verdade. O poeta cristão de Beowulf honrou os seus antepassados pagãos guardando com zelo a memória das lutas do homem no passado sombrio: "o homem caído e ainda não salvo, desonrado, mas não destronado".

O próprio Aristóteles era bem considerado pelos Reformadores. Pedro Mártir Vermigli, por exemplo, deu aulas sobre a Ética em Estrasburgo, e essas aulas serviram de base para um comentário, o único sobre uma obra não bíblica em toda a sua produção. Vermigli sustentava que a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa, e que as obras pagãs, por mais verdade que contenham, só se completam no Evangelho.

Respondendo a Alcuíno: Ingeld tem ao menos isto a ver com Cristo. Há virtude real nessas histórias, e vale a pena entregá-las aos nossos filhos.

Portar-se como homem

Imagine um menino criado com histórias de homens corajosos: Beowulf no lago, São Jorge lutando contra o dragão, Crockett no Álamo. Ele aprendeu o que é coragem ouvindo histórias sobre os seus antepassados. Toda noite ele se imaginou vestido de armadura pesada, firmando-se contra os golpes de um inimigo poderoso. Ele já decidiu cem vezes quem ele é. Quando chegar a hora de enfrentar o lobo, ele saberá portar-se como homem.

As crianças serão moldadas pelos mitos que lhes forem contados. Ainda temos as nossas próprias histórias, três mil anos delas. Contá-las ou não depende de nós.

Publicado originalmente em inglês na American Reformer: Myth and the Making of Men: Recovering the Ancient Stories that Made the West.

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