A família não é um problema de engenharia
Uma resenha de *Inconceivable: The Impossibility of Family in an Age of Uncertainty*, de Anna Louie Sussman
“Há três coisas que nunca se fartam; há quatro que nunca dizem: Basta”, escreveu o sábio Agur há três mil anos, referindo-se ao Sheol, ao ventre estéril, à terra seca e ao fogo consumidor. Ele colocou o anseio humano por um filho na mesma categoria das forças cósmicas: sem fundo, sempre sedento, consumidor e além do poder de qualquer um de consertar. Era simplesmente assim que o mundo funcionava.
Inconceivable: The Impossibility of Family in an Age of Uncertainty, de Anna Louie Sussman, abre com uma dor aparentada, mas recusa a premissa de Agur. A lacuna que ela investiga é entre quantos filhos as pessoas dizem querer e quantos de fato terão. Em sua narrativa, essa lacuna não é um fato da natureza. Parte dela é fabricada: décadas de escolhas políticas que premiaram o capital em detrimento das crianças e a busca individual em detrimento das comunidades que um dia tornaram a vida familiar generalizada possível. Mas não é só questão de dinheiro.
Sussman também encontra um obstáculo mais simples e mais duro: muitas vezes não há com quem construir a família. Da aritmética esmagadora do sistema educacional da Coreia do Sul às restrições polonesas à FIV, da matemática silenciosa da dívida estudantil americana ao que uma entrevistada chama de “crise da heterossexualidade” — no sentido de que homens e mulheres são cada vez menos capazes de encontrar um no outro o que uma parceria exige —, Sussman viaja o mundo recolhendo histórias como evidência de uma tese que, no fim, soa como uma refutação da sabedoria antiga. Esse anseio não é eterno nem insaciável por desígnio. É insaciável por causa do que construímos, e por causa de quem nos tornamos — ou deixamos de nos tornar — uns para os outros.
É a pergunta com que o livro deixa o leitor. Se o ventre estéril já não é obra da natureza, mas nossa, o que — ou quem — de fato deve uma resposta a essa dor?
Sussman é uma repórter cuidadosa e humana, e isso se vê. Ela é honesta ao dizer que nenhum vilão único explica o que encontrou: o custo da moradia, as práticas de contratação, a escolarização hipercompetitiva e a estranha e nova solidão do namoro recebem cada um a sua parte. Mas, com toda essa paciência, Inconceivable chega sempre ao mesmo lugar: o obstáculo está lá fora, no sistema, e a correção, se houver uma, também está lá fora — melhores políticas e melhor infraestrutura para encontrar um parceiro ou congelar aquilo que o tempo não espera.
Um estudante de enfermagem não consegue transferir os créditos do community college; como a carreira começa tarde, ele e uma futura parceira talvez precisem de FIV quando estiverem prontos para ter um filho. Sussman atribui o fracasso inteiramente ao sistema de transferência, sem pausar para perguntar se um aluno que escolhe um programa sem confirmar seus acordos de articulação assume parte desse risco, e sem pausar de modo algum no último elo da cadeia. A FIV aparece aqui como aparece ao longo do livro: como rede de segurança, um plano que existe e, portanto, resolve o problema do atraso. Mas não chega a resolver. As taxas de sucesso caem com a idade; a estimulação ovariana carrega riscos reais próprios (incluindo a OHSS, que pode hospitalizar e, em casos raros, matar); e nenhuma reforma do sistema de transferência de créditos muda a biologia do outro lado.
É um tanto estranho que um livro tão atento ao fracasso estrutural nunca volte a mesma atenção à estrutura da indústria da fertilidade que insiste em oferecer como a rede de segurança sob a história de todo mundo.
A mesma lacuna molda o tratamento que Sussman dá ao congelamento de óvulos. Ela tem razão ao dizer que muitas das mulheres que entrevista não estão escolhendo congelar óvulos em vez de namorar: o excesso de trabalho e os horários instáveis não lhes deixaram tempo algum para namorar — e isso é uma realidade que merece ser nomeada. Mas o relato dela detém-se no diagnóstico. Sussman argumenta que, como o sistema lhes roubou o tempo, guardar óvulos é a resposta sensata, quase neutra, a esse furto.
O congelamento de óvulos, porém, não é um botão de pausa. É um regime de medicamentos e uma coleta cirúrgica, com taxas reais de fracasso e risco físico real, e não há garantia de que os óvulos algum dia se tornem uma criança. Um livro disposto a gastar cem páginas com práticas de contratação e custos de moradia deve a seus sujeitos ao menos um parágrafo sobre o que o procedimento que ele insiste em apresentar como resposta de fato faz ao corpo — e com que frequência não funciona.
A mesma atenção seletiva aparece no modo como ela trata a pesquisa de Diane Tober sobre doadoras de óvulos. Sussman cita Tober para explicar por que mulheres americanas vendem seus óvulos: para pagar a faculdade, ou para quitar o que a faculdade já custou. Depois aponta a Europa como corretivo implícito, presumindo que, onde a mensalidade é gratuita ou quase gratuita, a venda cessaria. Mas a própria pesquisa de Tober não sustenta essa comparação.
Mulheres na Espanha — um dos maiores mercados de óvulos do mundo — também vendem óvulos em grande número. Tober encontra a mesma pressão financeira por baixo: não a dívida de mensalidade, que quase não existe ali, mas o custo do aluguel, da comida e, simplesmente, de se manter à tona. Sussman nunca pergunta por que a venda continua depois que a dívida específica que ela culpa desaparece. A resposta honesta complica a tese dela. O mercado de óvulos funciona sobre a precariedade financeira em geral, e a dívida estudantil é apenas a sua face mais visível e americana. Uma indústria disposta a recrutar onde a necessidade for maior continuará encontrando vendedoras sob qualquer sistema econômico em que opere.
Até a prescrição implícita do livro não sobrevive ao contato com o próprio método comparativo. A Dinamarca chega perto de um experimento natural para a tese de que um melhor apoio social conserta a taxa de natalidade: licença parental generosa, creche subsidiada e saúde universal — exatamente o pacote que Sussman contrapõe à escassez americana. A taxa de fertilidade da Dinamarca caiu mesmo assim, de cerca de 1,9 filho por mulher em 2008 para menos de 1,5 hoje. Os pesquisadores que estudam essa queda apontam para a pressão da carreira e o conflito entre trabalho e vida, e não para a insuficiência dos benefícios. Se mesmo o sistema mais generoso do mundo desenvolvido não consegue segurar a linha, o déficit americano talvez também não seja, em primeiro lugar, um problema de concepção de políticas.
Há uma pergunta mais dura que o livro não faz a seus sujeitos americanos: Quanta dessa escassez é involuntária?
Os Estados Unidos continuam sendo um dos países mais generosos do mundo no plano privado, doando cerca de 2% do PIB — várias vezes a taxa da maioria das nações pares. Esse não é o perfil de um povo esmagado por um sistema sem coração, e sim o de um povo que escolheu atender à necessidade no âmbito privado, em vez de entregá-la ao Estado. Marvin Olasky fez uma versão desse argumento há 30 anos em The Tragedy of American Compassion: quando o governo assumiu o trabalho pessoal, condicional e baseado em relacionamentos que a caridade costumava fazer, não mudou apenas quem assinava o cheque; corroeu a mobilidade e a obrigação mútua que vinham com comunidades reais ajudando os seus.
Sussman é honesta ao querer uma rede de segurança estilo Dinamarca para as famílias americanas; é menos curiosa quanto ao preço que um Estado de bem-estar cobra do instinto de uma cultura de construir essa rede por conta própria. Essa lacuna se agrava depois. Formandos que saem da faculdade com pouca ou nenhuma dívida também tendem a comprar a primeira casa mais cedo e por valores maiores: quem carrega mais de US$ 35 mil em dívida estudantil tem 27% menos chance de comprar uma casa, e os que compram gastam quase 40% menos do que compradores sem dívida quando finalmente o fazem. A escolha feita aos 22 anos de evitar a dívida reaparece uma década depois como entrada. Um livro tão atento ao custo estrutural deveria notar quando parte do custo é um acúmulo de escolhas pessoais.
Nada disso torna a dor que Sussman documenta menos real. Mas ela não é nova. “Não há nada de novo debaixo do sol”, escreveu o Pregador em Eclesiastes, ao percorrer um mundo de trabalho e necessidade e não encontrar sistema algum que acabasse com um ou com o outro. Ter filhos, prover para eles e encontrar alguém com quem criá-los tem sido difícil em todas as eras, por razões que nenhum século resolveu por completo.
Inconceivable é um livro de sua época no modo como busca, quase por reflexo, respostas tecnológicas e políticas para uma dificuldade mais antiga do que qualquer economia: melhores leis de licença-maternidade, melhores aplicativos de namoro, melhores técnicas de reprodução assistida para aumentar as chances. Eu não compartilho desse reflexo. Alguns problemas, no fim, não são problemas de engenharia.
Mas Sussman já sabe algo melhor do que suas próprias conclusões sugerem. Cedo no livro, antes de chegarem as recomendações de política, ela faz algo mais difícil e mais raro: senta-se com seus sujeitos tempo suficiente para que o medo deles soe como medo, e não como um problema à espera de correção. Essa paciência — e não a próxima lei ou o próximo laboratório de fertilidade — está mais perto do que a dor nos pede. Agur também nunca prometeu ao ventre estéril uma resposta. Apenas disse a verdade a respeito dele, com clareza, e o deixou ao lado do Sheol, do fogo e da terra sedenta, sem se esquivar. Um livro disposto a fazer isso do começo ao fim — e não só na reportagem — teria sido o livro melhor. Também teria sido o mais verdadeiro.
Jennifer Lahl, enfermeira (RN), é fundadora do Center for Bioethics and Culture Network. Seus escritos apareceram em publicações como Cambridge University Press, San Francisco Chronicle, Dallas Morning News e American Journal of Bioethics. Comentarista frequente na mídia, foi entrevistada pela ABC, CBS, PBS, FOX e NPR, e falou perante legisladores, painéis científicos, o Parlamento Europeu e a Comissão da ONU sobre a Situação da Mulher.
Artigo traduzido por Éden Publicações e publicado com permissão de American Reformer.
Todos os direitos reservados por American Reformer e Jennifer Lahl.
Leia o original em inglês aqui.




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