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Depois do complementarianismo, o quê?

há 11 minutos
17 min de leitura

Por que os igualitários (ainda) estão vencendo o debate evangélico sobre gênero

No segundo encontro com a mulher que mais tarde se tornaria minha esposa, eu lhe disse que queria tornar nosso relacionamento “oficial”. Houve uma mudança em seu jeito, e ela passou a explicar que aquilo lhe parecia um salto grande e assustador. Fiquei atônito. Vínhamos conversando com regularidade havia meses. Tínhamos saído duas vezes, e as conversas tinham corrido tão bem quanto poderiam. Num sentido, eu não pedia que nada mudasse. Queria apenas que continuássemos na direção em que já estávamos, agora com a consciência de que éramos — digamos — um casal: namorado e namorada.


Tive duas horas de viagem de volta para pensar nos próximos passos. Ela não disse que queria parar de conversar, nem que queria parar de me ver. Estava apenas presa à terminologia. E, em algum ponto da estrada sinuosa entre Lynchburg e Richmond, a sabedoria do Bardo veio à mente: “O que há num nome? Aquilo a que chamamos rosa, com qualquer outro nome, cheiraria igualmente doce.” Então decidi que não me importava com o nome que ela desse ao nosso relacionamento. Eu continuaria a cortejá-la até que ela me mandasse embora. Nunca mandou.


De palavras e coisas

Penso naquele episódio da minha vida sempre que encontro discussões sobre a substância de uma coisa e o rótulo que usamos para descrevê-la. Como agora, por exemplo, quando debates sobre terminologia surgem entre cristãos conservadores que concordam que Deus criou os sexos de maneiras complementares e não intercambiáveis, correspondentes a chamados — no lar, na igreja e na sociedade — que se ajustam às nossas respectivas constituições. Em resumo, alguns preferem o termo “complementarianismo” para expressar essa visão dos sexos, enquanto outros preferem o termo “patriarcado bíblico” para descrever a mesma coisa.


Suspeito que seja tentador para alguns descartar esse debate como mais uma reprise da famosa advertência de Paulo “para que não contendas acerca de palavras, que para nada aproveita, senão para subverter os ouvintes” (2Tm 2.14). Contudo, certas palavras importam, como Paulo bem compreendia (Cl 4.4), e como compreenderam os bispos que debateram se homoousion ou homoiousion era o termo certo para expressar a natureza de Deus Filho em relação a Deus Pai. Como Mark Twain certa vez formulou: “A diferença entre a palavra quase certa e a palavra certa é realmente uma questão grande — é a diferença entre o pirilampo e o relâmpago.” Em chave agostiniana: as palavras são sinais verbais; portanto, deve haver correspondência entre o sinal e a coisa significada.


Então, três vivas à terminologia precisa. Contudo, Shakespeare — que não era nenhum ignaro na arte de escolher a palavra certa para a ocasião — sabia que as palavras também podem atrapalhar nossa capacidade de ver a substância de uma coisa, seja uma rosa ou um Montecchio. O mesmo vale para o ensino bíblico sobre os sexos: os rótulos importam, mas a substância importa mais. Minha tese neste artigo é que certa forma de complementarianismo é, em substância, a mesma que a visão conhecida como “patriarcado bíblico”. Assim, debates sobre termos — embora não sejam de todo inúteis — devem, ainda assim, ceder o passo a essa concessão, permitindo que cristãos conservadores construam uma coalizão duradoura capaz de enfrentar a crescente confusão do mundo acerca de gênero e sexualidade.


A morte do complementarianismo?

Não muito depois de a primeira versão do artigo de Aaron Renn sobre o “mundo negativo” torná-lo uma figura conhecida nos círculos cristãos, ele disparou um tiro ecoado em todo o mundo dos debates evangélicos sobre gênero. Renn declarou que o complementarianismo — a visão de que homens e mulheres são igualmente criados à imagem de Deus, mas têm papéis complementares no desígnio de Deus — é um sistema moderno que morrerá com o declínio da influência da geração dos baby boomers.


Renn ofereceu várias razões para suas conclusões, algumas baseadas em observações sociológicas sobre as origens e as organizações que promovem o complementarianismo. Embora eu não concorde com cada ponto que Renn faz, ele acertou em cheio a tendência crescente, entre muitos complementarianos, de suavizar ao máximo as próprias posições. Ele escreve: “O complementarianismo estendeu sua posição de minimalismo bíblico absoluto ao ponto em que está se desfazendo. Por minimalismo bíblico absoluto quero dizer que eles perguntam: qual é a menor quantidade absoluta de desvio do igualitarismo que podemos justificar escrituristicamente?”


Como exemplo dessa tendência, Renn destacou o trabalho de Kathy Keller em popularizar a afirmação à maneira de slogan de que “tudo o que um homem não ordenado tem permissão de fazer, uma mulher também tem”. O marido de Kathy, Tim Keller, certamente praticou essa abordagem em sua igreja em Nova York, assim como muitas das igrejas por ele influenciadas. Renn observa:


A própria Redeemer empurrou tanto a interpretação bíblica quanto o livro de regras denominacional o mais longe possível em direção ao igualitarismo. As muitas igrejas inspiradas pela Redeemer parecem fazer o mesmo. Por exemplo, a antiga igreja PCA da minha esposa — um clone da Redeemer até no nome — tentou convencê-la a se voluntariar para presidir o comitê de busca pastoral. A justificativa era que, como a Bíblia não diz explicitamente que mulheres não podem liderar a busca de um novo pastor, então não só é permitido, como devem deliberadamente tentar colocar uma mulher naquele papel.

Essa tendência está longe de ser um problema exclusivo da PCA (a denominação do falecido Keller). No mesmo artigo, Renn aponta para uma sugestão popular feita em 2018 de que a então batista do Sul Beth Moore fosse eleita presidente da SBC. Como os estatutos da convenção não proíbem essa possibilidade, Renn observa que isso cria um cenário “farsesco” em que uma SBC confessionalmente complementariana “sustenta que a Bíblia diz que uma mulher não pode ser a cabeça de uma igreja, mas pode ser a cabeça de uma denominação”.


Outros que se dizem complementarianos seguiram trajetória parecida. Por exemplo, o pastor britânico e figura central do TGC Andrew Wilson disse: “Há dez anos eu estaria numa posição em que não tínhamos mulheres na escala de pregação. E agora temos — nas duas igrejas que pastoreio. E eu defenderia isso totalmente em bases bíblicas.”


Renn passa, então, a prever que o complementarianismo morrerá, em parte pela passagem dos boomers que o popularizaram, e em parte pelos “Moisés” liberalizantes dentro do complementarianismo, que “podem não atravessar pessoalmente o rio Jordão. Mas, tendo conduzido multidões até a beira da Terra Prometida igualitária, seus Josués à espera provavelmente o farão.” Renn conclui: “De modo intencional ou não, o complementarianismo chegou a um lugar insustentável… A pergunta, então, é o que vem depois do complementarianismo.”


Depois do complementarianismo, o quê?

Renn admite que “o futuro é inerentemente impossível de prever”, mas prevê que “um grupo pequeno, mas não insignificante, de pessoas se moverá numa direção reacionária, abraçando uma complementaridade sexual mais espessa e substantiva e até uma visão patriarcal.” Diz também que “esse grupo lutará para criar uma teologia/visão intelectualmente coerente que seja viável no mundo de hoje e de amanhã.”


Penso que Renn está certo quanto às tendências do complementarianismo, ainda que eu não concorde com sua avaliação do movimento em cada ponto. Penso também que acertou ao prever que um número crescente de pessoas abraçaria uma visão mais substantiva da sexualidade — muitos já o fizeram. E, exatamente como previu, alguns nesse grupo começaram a usar o termo “patriarcado” para descrever sua visão. Mas discordo de Renn de que tais movimentos reflitam um afastamento do complementarianismo, ao menos em substância. Penso, antes, que esses desenvolvimentos implicam a rejeição de certa forma de complementarianismo que é insuficientemente bíblica e a-histórica. Essa forma de complementarianismo se contrapõe a uma segunda visão dentro do mesmo movimento, a qual, como já disse, parece ser a mesma, em substância, que a visão às vezes chamada de “patriarcado bíblico”.


Meu argumento se apoia em duas verdades. A primeira: há duas formas de complementarianismo — fato cada vez mais evidente nos últimos anos. Jonathan Leeman refere-se aos dois grupos como complementarianos “amplos” e “estreitos”. Kevin DeYoung refere-se aos mesmos como complementarianos “espessos” e “finos”. Joe Rigney chama-os de complementarianos “naturais” e “ideológicos”. Andy Naselli ofereceu uma tabela útil que contrasta as duas visões.


Também escrevi longamente sobre as diferenças desses grupos, e não vou reiterar tudo aqui. A distinção básica relevante para este artigo é que os complementarianos estreitos/finos/ideológicos agarram-se a um número limitado de mandamentos explícitos sem a visão bíblica dos sexos que fundamenta esses mandamentos. Em outras palavras, os complementarianos finos/estreitos/ideológicos têm “regras” sem “razões” claras para o Senhor as ter dado. Isso não só retrata os mandamentos de Deus como arbitrários, como também torna esse grupo incapaz de aplicar a visão bíblica completa dos sexos a situações da vida que não são explicitamente tratadas nas Escrituras (algumas das quais nem existiam no tempo dos autores bíblicos). Enquanto isso, os complementarianos amplos/espessos/naturais têm tanto as regras quanto várias razões para tais regras, e assim os equipa com uma visão bíblica dos sexos ampla o bastante para informar como homens e mulheres devem pensar a importância do desígnio de Deus em toda a vida.


A segunda verdade, central ao meu argumento, é que o complementarianismo amplo/espesso/natural é essencialmente o mesmo que a visão tradicional dos sexos sustentada por figuras como Tertuliano, Crisóstomo, Ambrósio de Milão, Agostinho, Tomás de Aquino, Martinho Lutero, João Calvino, Herman Bavinck, C. S. Lewis, Stephen B. Clark, a Igreja Católica Romana, a Igreja Ortodoxa Oriental e a maioria dos autores de Recovering Biblical Manhood and Womanhood (Recuperando a Masculinidade e a Feminilidade Bíblicas). Todos esses autores — e centenas mais — representam uma espécie de “mero complementarianismo”, aquilo que “foi crido em toda parte, sempre, por todos” na igreja, até a decadência do protestantismo mainline em meados do século XX. Essa visão toma as diferenças entre os sexos como fundamento dos mandamentos de Deus específicos quanto ao gênero, com vistas a uma aplicação mais ampla das diferenças sexuais em todas as esferas da vida.


Denny Burk, presidente do Council on Biblical Manhood and Womanhood, argumentou na mesma linha em sua resposta ao artigo de Renn. Burk escreve que o complementarianismo “é um termo novo cunhado para se referir a um ensino antigo enraizado no texto das Escrituras… Alguma versão do que agora chamamos de ‘complementarianismo’ é o que a igreja assumiu ao longo de toda a sua história de 2.000 anos.” Ou, como Burk diz noutro artigo, embora o termo “complementarianismo” seja um neologismo, os conceitos centrais do sistema são “um resumo do que a Bíblia sempre disse sobre masculinidade e feminilidade.” Penso que Burk está certo, mas somente se, por “alguma versão do complementarianismo”, ele tiver especificamente em mente a versão ampla/espessa/natural descrita acima. Pois a versão fina/estreita/ideológica do complementarianismo é, de fato, um desenvolvimento novo: um desvio significativo das visões centrais da igreja ao longo dos séculos.


De volta às críticas de Renn

Embora Renn não mencione a distinção entre dois tipos de complementarianismo, penso que suas críticas se aplicam em grande medida — se não por completo — ao campo estreito/fino/ideológico. Ele chega perto de afirmar a segunda forma de complementarianismo quando prevê o surgimento de “uma complementaridade sexual mais espessa e substantiva e até uma visão patriarcal.”


Contudo, esse desenvolvimento não é tanto surgimento quanto ressurgimento; não inovação, mas recuperação. Marca a ascensão de uma geração de complementarianos mais jovens que, por várias razões, se envergonham menos dos ensinamentos “fora de moda” da Bíblia sobre os sexos e se alinham mais de perto ao modo como teólogos cristãos falaram dos sexos por séculos antes da era moderna.


Considere, por exemplo, o artigo de Steven Wedgeworth, “Male-Only Ordination Is Natural: Why the Church Is a Model of Reality” (“A ordenação exclusiva de homens é natural: por que a igreja é um modelo da realidade”). Ao lidar com o argumento de Paulo em 1 Coríntios 14.34–35, Wedgeworth observa que “a lógica do governo eclesiástico é… consistente com e edificada sobre a hierarquia mais básica de maridos e esposas.” À luz do modo como Paulo argumenta em 1 Coríntios 11.3–16, Wedgeworth afirma também que “1Co 14.34 não é algum exemplo solitário de patriarcado fora de lugar. É plenamente consistente com o restante da paisagem paulina e neotestamentária.” Ele também mostra que teólogos como Lutero e Calvino interpretaram essas passagens de modo inequivocamente patriarcal (isto é, hierárquico). Wedgeworth conclui:


A “lógica” do ensino do Novo Testamento sobre a liderança masculina na igreja baseia-se consistentemente no padrão criacional de Gênesis 2. É por isso que igrejas que retêm a ordenação exclusiva de homens rejeitam argumentos de que a restrição se baseava em costume humano e só era relevante para culturas patriarcais. Esse ensino não foi apenas um traço cultural do período histórico, mas refletia de fato uma lei natural, a própria ordem da criação. Mas, se assim é, então não podemos ridicularizar os comentários de alcance mais amplo de Lutero e Calvino. A mesma lógica fundamenta ambos. E assim somos deixados a escolher. Retemos a lógica [patriarcal] deles, porque ela é de fato a lógica do Novo Testamento, ainda que conflite com nossas pressuposições modernas sobre arranjo civil e igualdade, ou rejeitamos essa lógica, juntamente com a lógica do Novo Testamento? … Em todo caso, o caminho do meio do complementarianismo estreito parece o menos intelectualmente atraente. Por fim, cada um sentirá a atração de uma das duas posições consistentes.

Note-se que o artigo de Wedgeworth antecedeu o de Renn. Isso significa que o primeiro não estava escrevendo para defender a própria visão contra as críticas do segundo. Significa também que Wedgeworth antecipou o eventual colapso do complementarianismo estreito/fino/ideológico por razões compatíveis com algumas das observações de Renn. Ou seja, há uma forma de complementarianismo que está morrendo, exatamente como Renn disse, e está morrendo porque é subbíblica, ilógica e contrária ao consenso da história da igreja, como Wedgeworth mostrou com competência. Mas nada disso vale para os complementarianos amplos/espessos/naturais que, em essência, são adeptos do patriarcado bíblico sob outro nome.


Por que não abraçar o patriarcado?

A similaridade essencial entre a visão tradicional ou “patriarcal” dos sexos e o complementarianismo amplo/espesso/natural nem sempre foi reconhecida pelos complementarianos. Alguns a rejeitaram de modo explícito. Por exemplo, em Recovering Biblical Manhood and Womanhood, o editor colaborador John Piper cita com aprovação J. I. Packer quando este escreve: “Não tenho predileção por hierarquia e patriarcado como termos que descrevem a relação homem-mulher nas Escrituras.”


Ainda assim, a hierarquia sempre foi um traço do complementarianismo. É, de fato, um traço central que o distingue de seu rival ideológico, o igualitarismo. Daí o subtítulo das duas primeiras edições do manifesto igualitário Discovering Biblical Equality (Descobrindo a Igualdade Bíblica) ser “Complementaridade sem Hierarquia”. David J. Ayers, por sua vez, usa repetidamente os termos “hierarquia” e “patriarcado” em sentido positivo em sua contribuição a Recovering Biblical Manhood and Womanhood. Do mesmo modo, o teólogo bíblico Andreas Köstenberger e sua esposa Margaret argumentaram que “patriarcado” é uma descrição acurada do ensino bíblico sobre os sexos. Outros, como a autora católica Carrie Gress, defenderam abertamente a bondade do patriarcado e as consequências desastrosas do afastamento do mundo em relação a ele.


Ainda assim, Denny Burk argumentou que o termo “patriarcado” é improdutivo e não precisa ser defendido. Num episódio recente de podcast sobre o tema, Burk observou:


Meu argumento é que aquele termo, patriarcado — não patriarca, mas patriarcado — está tão carregado de propaganda feminista. E não era nosso termo desde o início. Eu nem sei por que gastaríamos energia com ele, porque toda vez que você usa o termo, tem de definir o que não quer dizer com ele. Tem de dizer às pessoas: “Eu sei que o uso dominante desse termo pelos feministas é que ele se refere a sistemas de misoginia e abuso na cultura, e precisamos nos livrar disso. Não é isso o que queremos dizer. Queremos dizer patriarcado bíblico.” Então elas dizem: “Bem, isso ainda soa a misoginia.” E assim você fica nesse argumento sobre palavras, quando, para mim, por prudência, quero chegar à realidade bíblica. Não quero tropeçar em discussão sobre palavras. E não faz sentido usar uma palavra que não era nossa desde o início e se torna um tropeço desnecessário para pessoas que quero persuadir a crer no que a Bíblia ensina sobre o modo como homens e mulheres devem se relacionar na igreja, no lar e, de fato, fora disso. Porque há implicações do que a Bíblia diz para toda esfera da vida, porque somos homens e mulheres em toda esfera da vida.

Kate Millett de fato popularizou “patriarcado” entre as feministas e usou a palavra em referência a sistemas de misoginia e abuso (o que nenhum complementariano amplo/espesso/natural ou defensor do patriarcado bíblico jamais defenderia). Contudo, ela não cunhou o termo em si, nem tem autoridade para ditar-lhe o sentido original ou próprio.


O Oxford English Dictionary cita o primeiro uso de “patriarchy” em 1561. O termo inglês foi cunhado por Thomas Norton, genro de Thomas Cranmer, em sua tradução das Institutas de Calvino. No contexto, Norton (via Calvino) falava de autoridade eclesiástica; outros autores, porém, logo usaram o termo para a organização social mais ampla. Por exemplo, Francis Bacon escreveu sobre “patriarcado” como sinônimo de “paternidade” em referência ao governo ou ao domínio pelos homens. Em meados do século XIX, o termo “patriarcado” já era comum o bastante para aparecer em referências jornalísticas como esta: “Uma grande commonwealth floresce no deserto: uma trindade política aparece, fundada nos princípios da teocracia, da hierarquia e do patriarcado.”


Mas, mesmo que esses usos iniciais de patriarcado não existissem, pergunto se a palavra que designa “domínio do pai” não é o termo mais apto para a visão bíblica dos sexos na ordem social que Deus instituiu para a humanidade. Efésios 3.14–15, que afirmam o domínio de nosso Pai nos céus sobre todas as pessoas, descrevem, sem dúvida, uma espécie de patriarcado divino. O uso bíblico do termo “patriarca” (patriarchēs, p.ex., 1Cr 24.31; 27.22; 2Cr 23.20 LXX; At 2.29; 7.8–9; Hb 7.4) estabelece continuidade lexical entre o tipo de autoridade que os pais-governantes possuíam e o conceito de “patriarcado”. E, falando do domínio dos pais, textos como Números 30 e Efésios 5.22–6.4 parecem, de fato, dar sustentação a essa noção (cf. 1Co 11.3–16).


Em outras palavras, o conceito de patriarcado — o domínio do pai —, se não o termo em si, parece permear as Escrituras. Foi essa, aliás, a conclusão da feminista Mary Daly, que argumentou serem as Escrituras tão “irremediavelmente patriarcais” que seria impossível salvar qualquer coisa da fé cristã e permanecer feminista comprometida. A alternativa, claro, é abraçar tanto a fé cristã quanto sua visão de figuras paternas benevolentes que servem como cabeças na família (Ef 5.22–6.4), na igreja (1Co 11.2–16; 1Tm 2.8–3.15; Hb 13.7, 17; cf. 1Co 4.15) e na sociedade (cf. Gn 3.16–17; 1Tm 2.12; Is 3.12), todas servindo para refletir o domínio de nosso Pai nos céus.


Abraçando o patriarcado sob qualquer nome

Suspeito que Burk não discordaria do que acabo de escrever, embora pudesse notar que o termo “patriarcado”, como o arco-íris (bandeira), foi tão profundamente abusado em nosso tempo que defender a palavra é um gambito tolo. Isto é: a substância — o que Burk chama de “a realidade bíblica” — é tudo o que importa. Talvez esteja certo; mas nem sempre parece ter pensado assim.


Em 2005, Burk escreveu sobre “a melhor apresentação de artigo que já ouvi na ETS”, dizendo que o apresentador estava “certo no alvo no que argumentava”. De modo um tanto surpreendente — dada a persuasão atual do autor —, o artigo fora escrito por Russell Moore. Seu título era “After Patriarchy, What? Why Egalitarians Are Winning the Evangelical Gender Debate” (“Depois do patriarcado, o quê? Por que os igualitários estão vencendo o debate evangélico sobre gênero”).


Apoiando-se no trabalho de Brad Wilcox em Soft Patriarchs, New Men, Moore destacou pesquisas mostrando que a benevolência superior dos pais evangélicos “é resultado do patriarcado, não uma aberração dele. Quando os homens se veem como cabeça sobre seus lares, sentem o peso da liderança — um peso que se expressa em devoção aos seus pequenos pelotões do lar.” Ao mesmo tempo, Moore preocupava-se com o fato de os evangélicos estarem cada vez mais culpados de “integrar a linguagem bíblica da cabeça com as noções culturais reinantes do feminismo — noções que cada vez menos evangélicos desafiam.”


O problema, diz Moore, é que “os evangélicos não parecem falar com frequência da cabeça masculina em termos de autoridade (e certamente não de patriarcado), mas geralmente em termos de uma ‘liderança servidora’ definida como zelar pelos melhores interesses da própria família — sem especificidades sobre como essa liderança se parece.” Desse modo, como diz Wilcox, “a cabeça foi reorganizada segundo linhas expressivas, esvaziando o conceito de praticamente todo o seu caráter autoritativo.” Moore continua: “Esse entendimento de ‘liderança servidora’ (lida como liderança titular, indefinida, não autoritativa) é precisamente o modelo de ‘complementarianismo’ que várias outras obras recentes observaram na subcultura evangélica.”


Então, como diria Frasier Crane, o que deve fazer um rapaz complementariano amplo/espesso/natural? Moore sugere: “Se os complementarianos hão de reconquistar o debate, não devemos temer fazer uma afirmação que é perturbadoramente contracultural e, contudo, notavelmente bíblica, uma afirmação que as feministas menos-que-evangélicas compreendem cada vez mais: o cristianismo é sustentado por uma visão de patriarcado.”


Moore reconhece que o uso desse termo é arriscado: “Mesmo usar a palavra ‘patriarcado’ num contexto evangélico é desconfortável, pois a palavra é tida como ‘negativa’, até pela maioria dos complementarianos.” Contudo, Moore insiste:


Os evangélicos deveriam perguntar por que o patriarcado parece negativo para nós que servimos ao Deus de Abraão, Isaque e Jacó — o Deus e Pai de Jesus Cristo… uma Paternidade que não é apenas eterna e abstrata, mas realizada numa relação divina com Jesus como o Homem representativo, uma relação covenantal histórica Pai/Filho que define a posição covenantal e a herança dos crentes. O patriarcado, então, é essencial — desde a geração de Sete à imagem e semelhança de Adão até a libertação de Israel, filho de Yahweh, das garras de Faraó, até a promessa de um filho davídico de quem Deus seria Pai (2Sm 7.14; Sl 89.26) até o grito de “Aba” da assembleia da nova aliança (Rm 8.15). Por tempo demais, os igualitários descartaram os textos-prova complementarianos com o apelo a ver a ‘trajetória’ panorâmica do cânon. Concordo que tal trajetória panorâmica é necessária, mas essa trajetória conduz ao patriarcado… [E] as estruturas patriarcais que existem na ordem da criação apontam para a sua cabeça — uma cabeça orientada para a redenção em Cristo (Hb 12.5–11).

Mais adiante em seu artigo, Moore antecipou algumas das críticas de Renn à saúde do movimento complementariano, apontando que “a vitalidade no complementarianismo evangélico agora está entre aqueles dispostos a falar diretamente das implicações e do significado da cabeça masculina — e que não se envergonham de usar termos como ‘cabeça masculina.’” Moore também soou como Renn quando disse: “Ironicamente, um complementarianismo mais patriarcal terá ressonância numa geração que busca estabilidade numa cultura ocidental fraturada pela família, de maneiras que o complementarianismo de barraca grande e de barriga mole jamais poderá.”


Nesse ponto, Moore lembrou aos ouvintes que “a pergunta para nós não é se teremos patriarcado, mas que tipo.” Ele afirma:


Agora mesmo, a cultura ocidental celebra a sexualidade casual, a coabitação, o divórcio sem culpa, as “famílias alternativas” e os direitos ao aborto. Todas essas coisas capacitam os homens a perseguir uma fantasia darwiniana do alfa-macho predatório em busca de nada além de poder, prestígio e do próximo orgasmo. Alguém realmente crê que essas coisas “empoderam” mulheres ou crianças? Em vez disso, a visão liberacionista sexual sustenta um patriarcado pagão completo com a imagem de uma deidade egoísta, impessoal e cruel. E, ironicamente, o tipo de patriarcado que as feministas com razão se opõem — o uso caprichoso do poder pelos homens para objetificar e usar as mulheres — é ele mesmo o produto de mudanças que as feministas mainstream defenderam. Não traz o imprimatur da revelação divina, mas do mito darwinista/freudiano de que o sexo é a medida de todas as coisas. Isso também acaba sendo um patriarcado, mas não há nada de “mole” nele.

Em 2005, Moore lamentou que “os igualitários estão vencendo o debate evangélico sobre gênero.” Dadas todas as tendências que Renn destacou, penso que os igualitários ainda vencem o debate sobre gênero. Mas a situação não precisa permanecer assim. E, como Moore concluiu: “A resposta complementariana precisa ser mais que reação. Precisa, em vez disso, apresentar uma visão alternativa — uma visão que resuma o ônus da cabeça masculina sob a rubrica cósmica do evangelho de Cristo e da restauração de todas as coisas nele. Precisa produzir igrejas que não se envergonhem de nos dizer que, quando dizemos o ‘Pai Nosso,’ somos patriarcas [patriarcalistas] da espécie mais antiga.”


Considerações finais

No fim das contas, concedo que a escolha entre usar o termo “(patriarcado) bíblico” ou o termo “complementarianismo amplo/espesso/natural” — ou alguma outra coisa — é em grande medida um debate sobre estratégia. E, apesar dos meus esforços neste artigo para mostrar que “patriarcado” é um conceito bíblica e historicamente defensável, suspeito que muitos complementarianos amplos/espessos/naturais continuarão a preferir este último termo.


Contudo, como disse desde o início, a substância importa mais que os rótulos. Por isso, os complementarianos amplos/espessos/naturais que preferem essa designação a “(patriarcado) bíblico” fazem bem em reconhecer a similaridade essencial das duas. E esses grupos devem parar de se opor uns aos outros, como se sustentassem concepções diferentes dos sexos bíblicos — pois, em grande medida, não sustentam.


Antes, esses grupos compartilham as mesmas frustrações e os mesmos objetivos de Kevin DeYoung, que escreve:


Uma das minhas grandes preocupações — que, lamentavelmente, parece tornar-se cada vez mais verdadeira a cada ano que passa — é que o complementarianismo, para muitos cristãos, se resume a pouco mais que um par de conclusões estreitas sobre esposas que se submetem aos maridos no lar e sobre a ordenação na igreja ser reservada aos homens. Se é só isso o que temos em nossa visão para homens e mulheres, não é uma visão que reteremos por muito tempo. Precisamos ajudar os membros da igreja (especialmente as gerações mais jovens) a ver que… Deus criou o mundo com a diferenciação sexual no coração do que significa ser seres humanos feitos à sua imagem. Não podemos compreender a ordem criada como deveríamos enquanto não compreendermos que Deus nos fez homem e mulher.

De minha parte, pergunto se a trajetória do complementarianismo que preocupa DeYoung pode em breve inaugurar um dia — se já não o fez — em que “patriarcado” seja a única palavra restante para distinguir depressa a visão bíblica da cabeça masculina tanto do feminismo quanto das formas “cristãs” sincréticas do mesmo. No mínimo, como observou Zephram Foster, o uso de uma palavra como “patriarcado” “deixaria as pessoas certas furiosas, e o resto de nós rindo.”


Artigo traduzido por Éden Publicações e publicado com permissão de Christ Over All.


Todos os direitos reservados por Christ Over All e Doug Ponder.


Leia o original em inglês aqui.

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