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Cada centímetro quadrado de nossas mentes

há 6 horas
8 min de leitura

Um chamado a uma reforma educacional

Há mais de cem anos, Abraham Kuyper afirmou aquilo que, a seu ver, era o telos próprio da educação cristã: “Não há um centímetro quadrado em todo o domínio da nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é Soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’” Com frequência, a famosa citação de Kuyper é invocada na política ou na apologética cultural, mas a fonte original não foi um sermão nem um discurso político: foi o discursEo de dedicatória de uma nova universidade holandesa. Sustentado por firmes convicções calvinistas, Kuyper plantou com ousadia a bandeira do domínio de Cristo naquele território sempre sitiado pelo inimigo — a Academia. Precisamos seguir os passos de Kuyper e rededicar-nos a uma filosofia educacional igualmente abrangente, que recentralize a orientação própria de educar cristãos ao abraçar um modelo cristocêntrico da forma e do conteúdo de cada disciplina.


Por que a visão de Kuyper sobre a educação é tão urgente? Os estragos deixados na academia pelo humanismo secular, pela pós-modernidade, pela Teoria Crítica da Raça, pelo evolucionismo e pelas revoluções sexuais são grandes demais para se ignorar. Demasiados de nossos filhos da aliança perderam o caminho. Não podemos reduzir a educação cristã a professores cristãos que evitam temas imorais. Em vez disso, precisamos formar os alunos nos níveis apropriados, pela lente bíblica. Uma educação que honra a Cristo treina o estudante a pensar e a ligar cada disciplina ao seu Criador.


Por mais idealista que pareça, essa orientação de modo algum é radical. Antes, pensar como cristãos acerca de cada disciplina acadêmica é obediência a mandamentos bíblicos de primeira importância. Considere a reafirmação que Jesus faz do Grande Mandamento: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22.37). Por meio da mente, devemos amar o Senhor com toda a nossa capacidade mental — com “a faculdade psicológica de compreender, raciocinar, pensar e decidir”. [1] Em suma, devemos amar a Deus em todos os nossos empreendimentos intelectuais. À luz do ensino das Escrituras, não pode haver “nenhum centímetro quadrado” — nenhum domínio que exclua essa cosmovisão teocêntrica (Cl 1.15–18).


Além disso, o Novo Testamento ensina que a vida cristã ocorre sobretudo na mente, o que explica o foco de Paulo no clímax de Romanos (Rm 12.2): “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Um regime constante de combate à carne e de renúncia ao mundo, na mente, deve começar cedo e marcar toda a experiência educacional de uma pessoa, dentro e fora da sala de aula. Exercitar a mente desse modo fortalece a fé dos alunos. O papel elevado da mente na vida cristã explica por que nossos inimigos espirituais miram os sistemas educacionais com tanta ferocidade. Uma vez capturada a mente do estudante, captura-se a sua alma.


Edmundo, figura central de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, ilustra o ponto. Em várias ocasiões, C. S. Lewis atribui à escola de Edmundo os seus defeitos. A queda de Edmundo ocorre pela facilidade com que se deixa enganar, por perder de vista o que é claramente verdadeiro e por falhar em confiar naqueles a quem mais ama.


Lewis atribui com maior clareza o impacto nocivo da escola sobre Edmundo depois que ele cai ferido em combate. Ao dar-lhe a poção mágica de cura, Lúcia “encontrou-o de pé e não apenas curado das feridas, mas com aspecto melhor do que ela o vira — ah, havia tempos; de fato, desde o primeiro período naquela escola horrível, que foi onde ele começara a dar errado. Voltara a ser o seu verdadeiro eu antigo e podia olhar você de frente” (itálicos meus). Nesse momento notável, o leitor descobre que a afinidade de Edmundo pela tolice foi cultivada na escola — um aviso poderoso contra a trajetória negativa sobre a qual uma instituição de ensino pode lançar um jovem.


Como no caso de Eva no jardim do Éden ou de Edmundo em Nárnia, Satanás continua a torcer a verdade, a minimizar o pecado e suas consequências e a abalar a confiança na bondade de Deus. A estratégia do nosso antigo adversário nunca mudou; mudaram apenas as suas ferramentas e métodos. Infelizmente, contar com uma poção mágica para resgatar um aluno desviado não é uma estratégia comprovada de criação dos filhos. Os estudantes precisam ser ensinados no que é verdadeiro, a ver o pecado pelo que ele é e, ao mesmo tempo, a apegar-se sem cessar à bondade de Deus.


Cristo como ponto de referência

Como, então, recuperar uma filosofia e uma prática educacionais? Simplesmente isto: pais e educadores devem, de propósito, referir todas as disciplinas de volta ao seu centro cristão. Ao fazê-lo, devemos rejeitar as falsas dicotomias que nos impedem de nutrir a devida reverência por tudo o que Cristo criou. Devemos, ainda, rejeitar o abandono da verdade objetiva pela pós-modernidade e a compartimentalização da filosofia e da teologia em relação a campos mais “empíricos”. Adotar essa visão exige que o pai eduque em casa ou encontre professores que busquem ativamente, primeiro, compreender e, depois, comunicar como as impressões digitais de Cristo cobrem toda atividade intelectual.


Cada disciplina revela o Deus Triúno de modo distinto. As ciências e a matemática tornam-se um estudo da arte criadora de Deus, tendo a revelação — e não teorias indemonstráveis — como ponto de partida. Como observa Christopher Watkin em seu livro de nome talvez mal escolhido, Biblical Critical Theory, somente numa sociedade ocidental monoteísta poderiam existir descobertas científicas. Com divindades caprichosas, incognoscíveis e desordenadas, os povos do Oriente e da África não tinham ponto de partida para realizar descobertas científicas importantes. Pensadores cristãos contemporâneos que descartam Gênesis 1 em favor de teorias criam planos inclinados que, por fim, resultam em pessoas que não creem que homem e mulher foram feitos à imagem de Deus, que a sexualidade tem um propósito divino, ou que se deve manter uma hierarquia bíblica na vida da igreja.


Mas não é só a ciência que deve ser sujeitada a Deus. A história também se torna o desdobramento dos propósitos de Deus no tempo, no qual Ele enviou Cristo “na plenitude do tempo”. A literatura torna-se um recontar imaginativo da experiência humana à luz dos padrões criação–queda–redenção — uma arte que Cristo usou com frequência para transmitir a verdade por meio da narrativa. A arte da retórica torna-se um modo de comunicar como o próprio Cristo comunicava — com histórias, discursos, revelação e perguntas. As belas-artes tornam-se um meio de contemplar, fruir e criar objetos de “glória e formosura”. O estudo das línguas torna-se um meio de compreender e apreciar outras culturas no rescaldo da queda de Babel.


Essa busca incute sabedoria, e não mero conhecimento. E, como a Bíblia ensina, a sabedoria começa com “o temor do Senhor” (Pv 9.10). O teólogo holandês Herman Bavinck, que mais tarde ensinou na universidade fundada por Kuyper, articulou esse conceito com eloquência:


Mas o que as Escrituras exigem é um conhecimento que tem o temor de Deus como seu princípio (Pv 1.7). Quando corta as conexões com esse princípio, ainda pode, sob falsos pretextos, carregar o nome de conhecimento, mas degenerará gradualmente numa sabedoria mundana que é loucura perante Deus. Qualquer ciência, filosofia ou conhecimento que presume poder firmar-se nas próprias pretensões e deixar Deus fora de suas pressuposições torna-se o seu contrário e desilude a todos quantos nele depositam expectativas.

Há hoje alguma disciplina ensinada nas escolas que inclua Deus em suas pressuposições?


Quando os educadores omitem Deus de propósito na sala de aula sob o pretexto de neutralidade moral, outro princípio organizador e outro telos preencherão necessariamente o vácuo resultante. Muitos cristãos aceitaram de modo ingênuo o que pensavam ser agnosticismo em seus modelos educacionais, mas revela-se algo bem pior.


Para reorientar nossas práticas educacionais, precisamos reconstruir nossos alicerces filosóficos. Meu colega Matt Marino oferece uma ilustração útil:


Imagine um “sistema solar de ideias” no qual Deus funciona como o sol em nosso sistema solar. Ele não é apenas a fonte de luz, mas também o centro de gravidade. Tudo o mais deriva o ser dele, e nada mais pode explicar-se sem referência a Ele.

Quando as disciplinas deixam de orbitar em torno de Deus, saem de suas órbitas e perdem tanto o sentido quanto a relação umas com as outras. A metáfora de Marino também sugere que todas as disciplinas podem, ao mesmo tempo, sustentar as próprias órbitas e manter o curso coletivo em torno de Deus. Ele dá gravidade, luz e sentido a todas as artes e disciplinas. Esse modelo as mantém todas centradas.


À luz desse paradigma, os pais cristãos devem assumir a educação dos filhos. Se devemos obedecer a Deuteronômio 6.4–9, então os pais devem ensinar os filhos a amar o Senhor e a obedecer aos seus mandamentos. Os pais são responsáveis por “ensiná-las [as leis de Deus] diligentemente a teus filhos” e por cultivar uma cultura doméstica permeada de conversas teológicas (6.7), com referência constante à Lei (6.8–9). Cometemos um erro teológico — de repercussões significativas — quando compartimentalizamos a lei de Deus ou a relegamos à Escola Dominical. Precisamos fazer o trabalho árduo de tratar todas as disciplinas, e não somente as teológicas, à luz de Deuteronômio 6.


Objeções

Três objeções a essa proposta vêm à mente. A primeira é a noção de que as crianças devem frequentar escolas públicas para evangelizar os colegas. No seu contexto imediato, Cristo deu a Grande Comissão a onze homens adultos com os quais investiu tempo significativo durante o seu ministério terreno. Não eram crianças. Em vez disso, a vocação da criança é compreender a fé (Dt 6.6–8; Pv 22.6). Não se pode propagar com eficácia aquilo que não se compreende. Embora crianças piedosas possam ser evangelistas jovens convincentes (em parte por causa da simplicidade e da inocência), o ônus da Grande Comissão ainda não lhes cabe — do mesmo modo que não cabe ao crente médio batizar convertidos. Os alunos precisam ser equipados antes de serem enviados a um campo missionário perigoso. Que professores e administradores cristãos carreguem o ônus de levar o evangelho às escolas seculares.


Em segundo lugar, muitas pessoas voltadas para a ciência sentem que a Bíblia e a ciência estão em conflito. Ouvi certa vez um pastor proclamar: “Gênesis 1 não tem qualquer relação com o restante das Escrituras.” Absurdo. Essa visão aumentou dramaticamente na era pós-Darwin; não é a visão de Isaac Newton, Michael Faraday, Robert Boyle e outros cientistas cristãos que inauguraram a Revolução Científica. Presumir que se sabe precisamente como a terra foi formada, em termos mecânicos, é simplesmente falacioso. Ninguém esteve presente para documentar a criação, salvo o próprio Deus.


A ciência objetiva não contradiz diretamente o registro bíblico. Todas essas noções são sempre teóricas, ou os métodos não são à prova de falhas. A tendência de interpretar a Bíblia à luz de teorias científicas é uma tentação pós-iluminista que afasta de Cristo, refletindo falta de confiança no Deus da ordem.


Por fim, alguns associam Kuyper a cristãos radicais com algum tipo de agenda teonômica. Contudo, essa não é a minha agenda e, além disso, recuperar uma visão cristocêntrica da educação não pertence a nenhum movimento escatológico isolado. Em sua base, a educação cristã é uma tentativa séria de ser fiel a passagens fundamentais das Escrituras que nos instruem sobre como orientar a busca do conhecimento, particularmente à sombra do Filho de Deus revelado. Nessa luz, Ryan McIhenny escreve: “A atividade cultural cristã é sempre feita no contexto da obra consumada de Deus em e por meio de Cristo e da consumação já/ainda não do seu reino.” Minha motivação ao escrever este artigo, ao fundar uma nova faculdade e ao dedicar minhas energias aos meus filhos é simplesmente esta: ser fiel como pai ao treinar meus filhos “na disciplina e admoestação do Senhor”. Nosso sistema americano está em ruínas, e precisamos edificar novas instituições para lhes proporcionar o que nos é exigido.


Conclusão

Se os cristãos hão de honrar o Senhor como o Criador e a fonte de toda verdadeira sabedoria e conhecimento, o ponto de partida para catequizar é o mais cedo possível, e isso deve estender-se até o nível universitário. Desse modo, as respostas às perguntas do catecismo “Quem me fez?” e “Quem fez todas as coisas?” não são teóricas; as respostas a essas perguntas me impulsionam a passar todos os meus dias pensando em como e por que Ele fez todas as coisas, como elas o glorificam e, em última análise, por que todas as coisas continuam sendo dele hoje. Quando esse modo de pensar governa nossa abordagem ao aprendizado, começaremos a ver como cada centímetro quadrado pertence ao nosso Salvador, nutrindo gerações de adoradores exuberantes.


Nota

[1] Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains (Nova York: United Bible Societies, 1996), 323–324.


Artigo traduzido por Éden Publicações e publicado com permissão de American Reformer.


Todos os direitos reservados por American Reformer e Ryan Smith.


Leia o original em inglês aqui.

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