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Data centers, demônios e o esvaziamento das igrejas na América

há 5 dias
6 min de leitura

O crescente pânico em torno da inteligência artificial vai além da tecnologia — é um sinal do que acontece quando um povo perde a confiança na providência de Deus.


A internet está cheia de cidadãos lotando prefeituras e câmaras municipais para protestar contra data centers. Em Louisville, manifestantes do grupo No Data Center 502 passaram a desenrolar rolos de fita vermelha e a cantar “Mentiroso! Mentiroso!” e “Vergonha!” nas reuniões da comissão de planejamento, antes de se retirarem en masse, escoltados pela polícia. No Condado de Mercer, Kentucky — território fortemente republicano —, opositores lotaram uma audiência da comissão de planejamento; um morador invocou Alexandria Ocasio-Cortez com aprovação da tribuna, e outro implorou à comissão que “não deixasse a ganância de poucos pesar mais do que o bem-estar do nosso povo”. Quando um comissário tentou ler uma declaração preparada explicando seu voto favorável, a multidão o interrompeu com vaias antes que ele pudesse terminar.


Quem acompanha várias dessas audiências logo vê surgir um padrão que pouco tem a ver com leis de zoneamento ou com desenvolvimento. Parecem mais reuniões de avivamento pentecostal do que exercício de governança democrática local.


A multidão não apenas objeta; ela testemunha. Autoridades que ousam defender um projeto são silenciadas a gritos e tratadas como hereges. A Big Tech torna-se algo mais próximo de uma legião de demônios do que de um conjunto de corporações, culpada no mesmo fôlego por poluição da água, contas de luz e por “jogar com a nossa saúde”. À medida que a multidão se agita em fervor carismático, líderes locais frequentemente respondem com arrependimento, confessando que estavam errados ao ter sequer considerado os projetos de data centers.


Embora os americanos ofereçam uma ampla gama de razões para se oporem à IA e aos data centers — da perda de empregos à infiltração chinesa —, a causa mais profunda é outra. Eles se reúnem nas câmaras municipais porque esses lugares permitem que uma multidão em grande parte desigrejada satisfaça o desejo de comunidade, sentido e missão que a igreja outrora oferecia.


O grande esvaziamento das igrejas


O esvaziamento das igrejas na América não é fenômeno novo. Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, menos da metade dos americanos pertence a uma igreja — queda em relação aos 70% em 2000 e a um pico de 76% em 1947. Em novembro passado, a Gallup constatou que apenas três em cada dez americanos frequentam a igreja com regularidade, e os Estados Unidos registraram um dos maiores declínios de religiosidade de qualquer nação na terra desde 2007.


Como a América sempre foi uma naão protestante, isso significa que um número sem precedentes de protestantes está abandonando a fé de seus antepassados, e muitos escolhem não crer em coisa alguma — embora o número dos “sem religião” (*nones*) tenha se estabilizado nos últimos anos.


Robert Putnam sustentou, de forma célebre, em Bowling Alone, que os americanos estavam se afastando das associações, clubes e instituições que outrora uniam as comunidades, e identificou explicitamente o declínio das igrejas como causa principal da perda de capital social. Como Putnam constatou, tornamo-nos rapidamente uma nação de pessoas que já não se reúnem, já não confiam umas nas outras e já não têm para onde levar seus temores e ouvir que não esto sozinhas.


A frequência à igreja também transcendia divisões. As pessoas se reuniam independentemente de filiação partidária, nível de renda, tipo de personalidade ou interesses. Para além de seu significado teológico, a igreja satisfazia a necessidade humana natural de fazer parte de algo maior do que si mesmo.


Diferentemente de outras reuniões coletivas — das marchas do BLM aos comícios de Trump —, as audiências locais sobre data centers são as que mais se aproximam das congregações de outrora. São locais, enraizadas em uma comunidade e em um espaço particulares, onde vizinhos podem se conectar. Como a oposição aos data centers é bipartidária, pessoas de todas as persuasões políticas podem sentir-se unidas em uma causa maior que transcende as linhas partidárias. Oferecem também uma experiência emocional semelhante à de um culto low-church, completa com pastores que pregam sermões, respostas congregacionais e um senso de catarse coletiva. É uma espécie de culto religioso — porém sem Deus e sem o Evangelho.


Crer em qualquer coisa


Mas por que a IA, em particular, se tornou o ponto focal?


Para citar a frase frequentemente atribuída de modo incorreto a G. K. Chesterton: “Quando o homem deixa de crer em Deus, ele não passa a crer em nada; passa a crer em qualquer coisa. Os seres humanos foram feitos para ter relacionamento com Deus e para julgar suas ações, seus tempos e os movimentos da história à luz das leis imutáveis de Deus. Sem Deus como ponto de referência, o medo empurra as pessoas a extremos, e um espantalho substitui outro assim que o anterior deixa de assustá-las.


Talvez nada revele mais a suscetibilidade de um povo irreligioso ao medo do que o catastrofismo climático. Em 2019, AOC declarou que o mundo acabaria em 12 anos se o país não tomasse ação imediata contra as mudanças climáticas. Isso foi apenas mais um elo em uma cadeia ininterrupta de prazos apocalípticos confiantes, específicos e uniformemente errados, que se estende até o final dos anos 1980. Até comentaristas seculares começaram a notar o absurdo. Um ensaísta ateu observou que “os catastrofistas climáticos são a versão secular do milenarismo apocalíptico”.


O pânico em torno dos data centers é o mais recente temor da moda, agravado pela representação hollywoodiana da inteligência de máquinas e pela desinformação generalizada sobre a tecnologia. Ainda assim, é um temor que será substituído assim que as pessoas perceberem que armazéns cheios de servidores são tão entediantes quanto parecem, ao passo que os novos empregos e o impulso à arrecadação tributária local são benefícios tangíveis.


Otimismo cristão


Durante grande parte de nossa história, os americanos creram que Deus é bom e que Ele nos deu um livro que revelou Seus planos para a criação, Seu amor pelo homem e Seu plano para o propósito do homem. Seja o paganismo, o fascismo, o comunismo, o antissemitismo, o transumanismo ou qualquer outro -ismo criado pelo homem, a revelação divina nos mantém enraizados na verdade e menos seduzidos por modismos intelectuais ou temores infundados.


Quando se trata de IA, os cristãos estão singularmente posicionados para avaliar a tecnologia de forma desapaixonada.


Podemos descartar de imediato as interpretações mais extravagantes e de ficço científica da tecnologia, porque a IA não pode tornar-se consciente nem racional. Deus cria as almas humanas; o homem não pode dar alma a uma máquina.


De modo mais prático, Deus incumbiu a humanidade de zelar pela terra e cultivá-la, enquanto Sua providência governa todas as coisas. Durante grande parte da história da América, nossa nação não foi meramente protestante, mas calvinista, enraizada na convicção de que a preservação, o concurso e o governo de Deus ordenam tudo o que vem a suceder. Longe de sufocar o desenvolvimento humano, isso o energizou. Os americanos creram que eram chamados a fazer brotar a abundância da terra. Isso contribuiu para o otimismo distintamente americano que definiu nossa nação por séculos.


Além disso, o foco da Reforma na vocação — a convicção de que o trabalho ordinário, feito com fidelidade, honrava a Deus — deu a sucessivas gerações de protestantes americanos uma razão teológica para construir ferrovias, fundar universidades e, por fim, fender o átomo, em vez de tratar o empreendimento mundano como distração da vida espiritual.


Essa confiança fiel e esse compromisso com o trabalho têm levado os americanos a responder aos problemas não recuando, mas avançando com determinação. Por exemplo, quando se trata de mudanças climáticas e energia — questões no centro de minha vida profissional —, um cristão fiel deve propor meios de sustentar os avanços da vida moderna e introduzir tecnologias mais novas, como as renováveis, a nuclear e a geotérmica, ao mesmo tempo em que mitiga problemas como as emissões de carbono. Isso também exige que cobremos contas daqueles que destroem de modo irresponsável nosso ambiente compartilhado ou que oprimem e marginalizam a igreja, como tem acontecido na China. Esta é uma visão enraizada que aceita a pecaminosidade humana ao mesmo tempo em que reconhece que Deus nos deu graça para fazer o que é bom para o Seu reino.


Superando o drama da IA


A Big Tech e os formuladores de políticas pró-inovação falharam em reconhecer que a oposição à IA e aos data centers não é meramente uma questão prática, mas espiritual. Com o sentimento anti-IA em ascensão, os defensores da IA têm oferecido compromissos de proteção aos consumidores de energia, fundos de investimento local, acordos de benefício comunitário e dividendos de vários tipos. Parte disso é, de fato, boa política pública — mas nenhuma dessas medidas alcança o problema espiritual.


Pessoas ansiosas podem beneficiar-se da prosperidade. Mas o verdadeiro florescimento humano exige algo mais profundo.


O pânico em torno da IA não é, de fato, sobre a IA. É o que acontece quando uma nação perde sua religião. Restaurar o bom e velho otimismo americano exigirá algo que o talão de cheques do Vale do Silcio não pode fornecer: um povo que volte a crer que somos guiados pela mão de Deus e chamados a fazer grandes coisas com as capacidades que Ele nos deu.


Chris Johnson é fundador e presidente do American Energy Leadership Institute.



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