Cristianismo cultural, de novo
Uma breve resposta a John Piper
O Desiring God acabou de republicar um sermão (sobre Lc 11.14–26) de John Piper intitulado “No Neutrality: The Illusion of Indifference to Jesus” [“Sem neutralidade: a ilusão da indiferença a Jesus”]. Como a maioria dos sermões do patriarca de Minneapolis, vale a leitura (ou a escuta). A mensagem básica: Cristo ou Satanás? Não há meio-termo nas Escrituras. Escolha um lado. Se você não está abraçando a Cristo, então, por padrão, está abraçando o diabo. “Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha.” E as Escrituras nos dizem o único modo de estar “a favor” de Cristo: o reconhecimento de sua divindade e ressurreição, a submissão ao seu senhorio e a confiança, pela fé operada pelo Espírito, em sua obra expiatória na cruz para a nossa salvação. Tudo isso é bom e verdadeiro.
Perto do fim, porém, as aplicações e o comentário cultural de Piper se tornam confusos.
Ali, Piper trata do cristianismo cultural. “Deixe-me dizer uma última palavra aplicando isso à nossa cultura na América de hoje. Diante do colapso moral da cultura ao nosso redor, algumas pessoas estão dizendo que o ‘cristianismo cultural’ de sessenta anos atrás (por exemplo) é uma coisa boa e que deveríamos trabalhar pelo seu retorno.” Eis a definição de Piper: “uma cultura na qual as pessoas, em sua maioria, não são verdadeiros cristãos, mas a cultura ainda é moldada pelos vestígios externos da chamada ‘ética judaico-cristã’.”
Ora, Piper está enxertando nessa definição algo que lhe convém: que a maioria das pessoas num lugar culturalmente cristão não são verdadeiros cristãos. Isso é contestável, sem dúvida. Por que isso decorreria necessariamente da definição? Por todos os relatos, a maioria das pessoas neste país há sessenta anos afirmava ser cristã — e a afirmação delas é tudo o que temos em que nos apoiar. Além disso, por que haveria menos cristãos naquele contexto do que no seu oposto?
A invocação de uma “ética judaico-cristã” também é suspeita — um termo discutível. Como o juiz John Paul Stevens, corretamente a meu ver, insistiu em seu voto dissidente em Van Orden v. Perry (2005), historicamente (isto é, no final do século XVIII) algo assim não existia. É uma criação relativamente recente, conjurada para certos fins jurisprudenciais e políticos de curta duração — como a boa erudição tem mostrado — e, portanto, não deveria ser parte intrínseca de uma definição de cristianismo cultural, a menos que limitemos a ideia apenas a manifestações mais recentes e à propaganda que as acompanha.
Piper recorda a própria memória de uma infância culturalmente cristã. Sem aborto sancionado pelo Estado, sem hora do conto com drag queens, sem mutilação genital de crianças, sem celebração do divórcio ou da promiscuidade, e assim por diante. A “sala cultural” da juventude de Piper estava “varrida e em boa ordem”. O pecado não estava ausente, mas as condições externas eram melhores do que são hoje.
Nem Piper nem os defensores do cristianismo cultural diriam que essas condições culturais eram, em si mesmas, salvadoras. Essa não é a natureza nem a função delas. E assim a análise deveria realmente terminar aqui: as coisas eram melhores quando as condições materiais ou culturais refletiam e promoviam o cristianismo, ainda que apenas externamente. A vida era melhor, e uma cultura saturada dos vestígios morais e éticos do cristianismo — ainda que, a despeito de si mesma, nas décadas de 1950 e 1960 — era objetivamente (neste aspecto) melhor do que o que temos agora, e não apenas para os cristãos.
Assuma aqui todas as ressalvas necessárias que nada mais fazem senão reconhecer a natureza humana caída e a imperfeição de todas as ordens sociopolíticas — oxalá tivéssemos agora um reconhecimento mais consciente e acionável desta última! Então talvez pudéssemos inquirir com mais liberdade sobre a finitude de nossa experiência e de nossas expectativas políticas recentes. Num ambiente são e instruído, como o do final do século XVIII, falar de César e de constituições mortas não assustaria as pessoas. Mas tampouco a ideia — o fato — de que a lei real é sempre viva, sugestão anátema na maioria dos círculos “conservadores”. Fica exposto quase diariamente que a maioria dos participantes do discurso é tristemente incapaz de pensamento real. Outra causa de lamento, com certeza — embora menor do que a condenação eterna das almas.
De qualquer modo, Piper não se contenta com uma análise limitada e externa, com a consideração dos benefícios temporais do cristianismo. Em vez disso, mistura e confunde dois modos de inquirir. Lamente com lágrimas a passagem do cristianismo cultural, ele instrui. Não lágrimas pela passagem em si, mas pelo “custo eterno”, pelos “milhões de cristãos culturais” que estão no inferno hoje. A incumbência dos cristãos, segundo Piper, é “resgatar as pessoas da ilusão de que uma vida limpa e bem ordenada pode salvá-las”. Só Cristo pode. Ao que eu digo: amém. Mas o cristianismo cultural não ocupa relação causal com essas coisas.
Concordo com Piper que, por definição — isto é, pelos ditames de nossa soteriologia compartilhada —, muitos cristãos culturais pereceram, assim como muitos cristãos não culturais hoje passarão a eternidade no Inferno, sofrendo sob a justa ira de Deus. E esse é o ponto. Nessa análise, qual é a diferença? Acabamos de descrever qualquer período da história, esteja ele dentro ou fora da cristandade.
A dúvida, a apostasia e a heterodoxia são perenes para a igreja em qualquer contexto de condições externas e materiais. O mesmo vale para o autoengano e a falsa segurança. (Veja At 5.1–11. Ananias e Safira não foram baixas do cristianismo cultural.) Perene também é a ilusão de que a mera participação ou o mero pertencimento à igreja são, em si mesmos, salvadores. O mesmo vale para o gozo de condições culturais favoráveis ao cristianismo. De novo, essa análise não nos leva a lugar nenhum quanto ao tema em questão. É uma confusão de categorias, de meios e fins.
Piper tem razão. Não há neutralidade — nem soteriológica, nem cultural. Alguma religião, alguma ortodoxia, alguma ética, alguma lealdade ditará ambas. O homem é uma criatura moral e possui o senso da divindade. Em outras palavras, é inescapavelmente religioso. Adorará alguma coisa. É também social, feito para a comunhão — não apenas com Deus, mas com outras criaturas. Temos, então, duas dimensões, dois modos de existência, que não podem ser bifurcados, assim como o corpo e a alma do homem não podem ser separados (exceto na morte). E, ainda assim, as duas partes desse dualismo corpo-alma podem ser analisadas separadamente, se quisermos fazer algum sentido disso.
A alma do homem inclina-se à adoração, mas também o seu corpo, a sua existência material. Daí, entre outras coisas, os sacramentos. A alma e o corpo informam-se mutuamente. Foi assim que Deus nos fez. E todos os pensamentos, palavras e obras devem refletir e honrar o Criador como algo natural. É um ditame do dever e da justiça, à parte da consideração da nossa salvação em Cristo. Se nenhuma redenção fosse oferecida, o dever permaneceria, dada a nossa origem e o nosso status.
Uma visão decididamente moderna é a de que condições culturais cristãs impedem a verdadeira religião ou a fé genuína e sentida no coração. A posição histórica protestante é exatamente o oposto. (Assim também nossos antepassados teológicos rejeitaram a ideia de que as autoridades civis cuidam apenas dos corpos e não das almas, ou de que um princípio de dano material bastava para a ética.)
Comecemos pela lei. Ela não está a jusante da cultura; antes, forma-a ou, ao menos, existe com ela em algum tipo de troca mútua (veja Obergefell). Isso talvez seja mais verdadeiro num contexto de common law. No mínimo, e no sentido mais amplo, a própria lei poderia ser concebida como um artefato cultural. Alguns diriam que ela é até a condição sine qua non de um ethnos ou nação. Se os parâmetros da ação correta devem ser compartilhados para que um povo mereça esse nome, o que a lei faz subsequentemente? Instruí; catequiza. A lei é pedagógica. E, de fato, é até preparatória para a salvação, na medida em que a boa lei imprime nas pessoas as coisas da teologia natural ou da justiça civil. A antiga suposição era que os homens teriam dificuldade de apreender verdades superiores, situadas acima da razão, se carecessem dos fundamentos da realidade.
Nossa cultura atual — muito ansiosa — de morte e subversão metafísica ilustra bem que o caos epistemológico não é propício à conversão em massa. Um aceleracionista buscaria agravar as contradições morais internas do nosso tempo, mas um cristão não pode. Talvez, numa data futura, quando a insanidade do nosso momento se impressione plenamente, ocorra uma virada radical e abrupta. Mas agora estamos especulando. O ponto é que a lei dirige as pessoas moralmente, e aí não há neutralidade. As pessoas ou estão sendo empurradas para Cristo ou para Satanás, e muitas se tornarão verdadeiros crentes sobre essa base. Isto é: porque a pedagogia legal, embora não instile por si mesma a crença genuína, ergue os limites do plausível. O que se torna “óbvio” e incontestável é meramente suportado pelos poucos cínicos, mas verdadeiramente abraçado pelos muitos sinceros. A maioria das pessoas é simples, fraca e comunitária — não indivíduos radicais. Segue a corrente e acaba adotando de verdade as visões e virtudes predominantes.
Passemos às condições culturais — aquelas coisas que excedem as regras de ação promulgadas pelas autoridades. O costume social e o estigma, argumentavelmente, exercem mais poder no chão da vida, pois preenchem as lacunas necessariamente não compreendidas pela lei — as trivialidades, comportamentos e pressupostos fora do seu escopo. Note que John Stuart Mill estava empenhado em erradicar o estigma precisamente por essa razão. Preconceitos cristãos são ruins para libertinos. Costumes e estigma podem, num sentido, preceder a lei e confirmá-la, ou aumentá-la adequadamente.
Quando os parâmetros do comportamento aceitável são cristãos, as pessoas agem de modo mais cristão — obviamente. Coisas, práticas e falas cristãs são normalizadas. Costumes e estigmas cristãos são, ao mesmo tempo, objetivamente bons e, de novo, preparatórios para a aceitação de verdades superiores apreendidas pela fé. Quando as pessoas são genuínas cristãs numa sociedade culturalmente cristã, isso é celebrado. Os incrédulos talvez consigam passar despercebidos, mas ao menos precisam fingir. Ainda têm de observar os dias de jejum e jurar sobre a Bíblia para exercer cargo. Ainda não podem fazer compras aos domingos. Sociopoliticamente, é tudo o que se exige. Por exemplo: os homens não precisam gostar de que o assassinato seja ilegal; só precisam cumprir. Mais frequentemente do que não, o fato de o assassinato ser ilegal os convencerá de que ele também é imoral. As leis — oficiais ou não — atuam tanto sobre o intelecto quanto sobre a vontade.
Esperar da força cultural mais do que a produção de justiça civil seria confundir esse modo de ser com a própria igreja. Ela não pode salvar, mas pode preparar. De fato, a ausência de condições culturais e legais que reflitam o cristianismo, o esperem e apontem para o Evangelho deve ser considerada um fracasso — uma má cultura. (O capítulo de Stephen Wolfe que cobre grande parte disso é gravemente subestimado.)
Para deixar claro: Piper não está celebrando o fim do cristianismo cultural com um “boa viagem” ao estilo Russell Moore. Mas, como a maioria dos evangélicos, está confuso. Ele deixa de ver a necessidade do cristianismo cultural porque assume erroneamente a sua relação causal com problemas que não lhe são exclusivos, mas perenes.
Piper é famoso por ser grande admirador de Jonathan Edwards. Humanamente falando, que tipo de cultura foi receptiva ao revivalismo de meados do século XVIII? Uma cultura cristã. Para aqueles críticos lá fora que insistam em que não há solução política para os males presentes e que só um novo e espontâneo Avivamento nos salvará, deveriam ponderar profundamente esse fato histórico.
O cristianismo cultural não é neutralidade. Não é indiferença a Jesus. É, segundo o seu modo, propósito e fim, o devido reconhecimento de Jesus e é, no mínimo, um incentivo à justiça civil. Além disso, aponta para o Evangelho; orienta-se para a verdadeira religião. Vestígios dessas condições ainda existem na América, e nosso país ainda apresenta, ao menos professadamente, uma população cristã considerável — regionalmente isso é ainda mais pronunciado. Em alguns lugares, uma justiça civil cristã ainda é preferida nas disputas pela liderança cultural ou política.
Onde a frequência à igreja é valorizada, a Bíblia é lida nas escolas, ou o nome de Cristo é invocado numa oração pública, a autoridade das Escrituras é normalizada — tanto os seus elementos morais quanto os salvíficos. Isso é bom, e muito melhor do que a alternativa. Por que preferiríamos um ambiente social hostil ao Evangelho ou à igreja instituída? Só mitos infalsificáveis de que a perseguição produzirá mais e melhores cristãos animam essa suposição. No fundo, o erro comum é esperar demais das condições culturais e, com isso, equivocar-se quanto à sua função e superestimar a sua causalidade.
E neste ponto, certamente, devemos reconhecer que os “valores familiares tradicionais” de Mayberry são melhores do que os valores pagãos de Sodoma. Os primeiros não podem salvar, mas tampouco os últimos; contudo, os primeiros são muito melhores para todos.
Artigo traduzido por Éden Publicações e publicado com permissão de American Reformer.
Todos os direitos reservados por American Reformer e Timon Cline.
Leia o original em inglês aqui.





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