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A polarização é bíblica

há 7 horas
12 min de leitura

O título já é uma provocação: a polarização é bíblica. Não é um enfeite de conferência. Na Conferência Avivamento e Reforma Brasil 2026, sustentei essa frase como tese, nascida do que eu mesmo ouvi nos bancos da igreja, em grupos familiares e em círculos de estudo e discipulado. Sempre que alguém menciona a polarização por causa da cultura em que vivemos, a análise que se repete é quase a mesma.

O desafio verdadeiro é saber como ligar os acontecimentos da cultura à fé cristã. Nas guerras culturais de que as outras palestras da conferência também trataram, a tentação mais comum no evangelicalismo tem sido fazer o que chamei de observações terceiraviárias e pietistas. Terceira via, aqui, é a busca permanente de um terceiro caminho: não tomar lado numa discussão concreta, achar um ponto de centro, ou até um lugar fora do espectro. Isso não se restringe à política. Pietismo, no sentido em que usei a palavra, é não entrar de fato na questão que está posta e, por isso, não julgar o mérito.

A primeira pergunta, então, é se aquele bicho-papão da famosa e infame polarização é mesmo o monstro que dizem. De onde veio essa ideia, e por que ela cabe numa conferência como esta?

Quando o crime vira “polarização”

O exemplo que mexeu comigo de forma intensa já havia sido mencionado por outros preletores. No ano anterior, um homem cristão, pai de família, que denunciava o mal e defendia a verdade bíblica na arena pública, foi assassinado de modo cruel e brutal, num crime político. O mundo ficou em choque. Vieram as perguntas, as investigações, a busca por um culpado.

O suspeito foi identificado como um jovem rebelde, cujo namorado era transgênero, e cujas mensagens associavam a motivação, em alguma instância, a essa ideologia. O que ocorreu foi um crime. Havia um criminoso e havia uma vítima. A pergunta óbvia é quem é o culpado, e como comentar, de uma perspectiva bíblica, um acontecimento que se deu ao vivo.

O que muitas vezes ouvi foi outra coisa: a culpa é da polarização; todos os lados estão errados; ninguém está certo; sem partidarismo; é preciso acabar com esses conflitos culturais; o nosso chamado é a paz. A pergunta que fica é se a polarização é o pecado ou se ela é apenas clareza. É preciso distinguir o mito da equivalência moral da antítese que o próprio Deus plantou.

O mito da equivalência moral é a ideia de que todos os lados são igualmente culpados: tanto quem morre quanto quem mata. Em toda questão, se alguém não gosta do que você diz, as suas palavras seriam tão violentas quanto o disparo de um tiro. Em diversos graus isso é um absurdo, e ainda assim é extremamente frequente no mundo em que vivemos e nas interpretações de eventos sociais que se ouvem dentro das igrejas e dos ambientes evangélicos. Discordância não é violência.

O mundo em que o cristão já entra em desvantagem

Lembrei que desenvolveria com mais calma a ideia dos três mundos do evangelicalismo, mas o pastor Allen Porto já a havia explicado na conferência. Em recapitulação breve: já não vivemos num mundo que enxerga o cristianismo de forma positiva. Apresentar-se como cristão bíblico, evangélico, reformado ou protestante é carregar pontos negativos no currículo. Isso aparece diante da mídia, em concursos públicos, como também ouvi de Simone Quaresma, e em muitas outras situações em que a hostilidade é lançada sobre os cristãos.

Depois da destruição daquilo que Francis Schaeffer chamava de consenso cristão, precisamos nos enxergar como um grupo que já não é bem-visto na esfera pública, no Brasil e no Ocidente. O fenômeno moderno da polarização é apenas o esclarecimento de um conflito que existe há mais tempo. Polarização bíblica, nesse sentido, é fidelidade ao princípio da antítese.

O mito moderno da polarização política e social funciona como um neutralizador espiritual e político. Quase sem variação, ele é lançado sobre o lado conservador, sobre o lado cristão de todas as discussões. Nunca se apresenta assim: o mundo está polarizado, progressistas, parem de ser progressistas; esquerdistas, parem de promover as suas agendas. Pelo contrário, a instabilidade social é trazida como culpa explícita somente do movimento dito reacionário. Por isso a análise é necessária. O mito consiste em tratar a polarização como se ela fosse outra coisa do que de fato é: uma falsa equivalência moral.

Há quatro movimentos nesta conversa. Primeiro, apresenta-se a falsa equivalência. Depois, precisamos enxergar a realidade: a antítese bíblica e a paz que vem pela verdade. Em seguida, enxergar o neutralizador, a ideia que inibe a consciência cristã. Por último, enxergar o chamado: avivamento e reforma, não revolução.

A culpa que se transfere do agressor para o conflito

Quando o assunto é polarização, o conflito é lançado como culpado no lugar do agressor. Responsabilizar o conflito é mais confortável do que responsabilizar quem o provocou. É o que acontece em muitas análises cristãs. O diagnóstico é míope: diz-se que a culpa da violência e do mal político é da sociedade polarizada, como se o problema fosse o conflito em si.

A verdade é que existe um polo agressor, ativamente empenhado em destruir o antigo consenso cristão. É um movimento revolucionário cultural, que traz ideias humanistas, secularistas, anticristãs e progressistas, e vai minando, uma base após a outra, o que antes era tido como óbvio. As leis estão sendo alteradas. A família está sendo atacada como instituição, tema de outra palestra da mesma conferência, marcada para poucos minutos depois. Em meio a esse ataque, para tirar a culpa do polo agressor, joga-se o foco no conflito.

Qualquer semelhança com o debate sobre legalizar ou criminalizar o porte de armas é mera coincidência: há quem afirme que a culpa da violência armada é das armas, e não dos seres humanos que as carregam. O caso, porém, é claramente o contrário. O grande problema é que acabamos equalizando o sequestrador e o sequestrado. É o moralismo dos dois lados.

Muitas vezes cristãos, inclusive reformados, pessoas que deveriam saber melhor e não cair num golpe tão simples de diagnosticar, caem exatamente aí. Sempre que há um conflito na arena pública, ou um conflito entre um cristão e um não cristão, abstem-se de julgar o mérito e passam a culpar o conflito. Não deveria existir esse conflito. Deveríamos ser o povo da paz e da tranquilidade.

É preciso, porém, distinguir a paz no sentido bíblico da paz no sentido mais comum, usado lá fora. Há diferença entre harmonia social e paz cristã. Muitas vezes o que se diz é: se a vítima tivesse ficado calada, nada disso teria acontecido; se a vítima não tivesse reagido, não teria morrido. O foco sai do assassino e passa a julgar a reação da vítima, como se não houvesse um crime claro e como se a vítima fosse a culpada de toda a situação. Não é o caso. Exigir o silêncio da vítima não é pacificação. É cumplicidade com a violência. Isso aparece em análises culturais, na internet, em vídeos, em igrejas e em rodas de amigos.

A frase que precisa ser dita com clareza é esta: a culpa não é da polarização; é do polo agressor. Não é o conflito que mata a vítima. É o criminoso. Os dois polos não são simétricos. Existe uma cultura da morte e existe uma resistência cristã.

Essa leitura se apoia numa análise da professora Nancy Pearcey, já muito citada nas palestras da conferência, publicada no X, o antigo Twitter: a cultura da morte é que inicia a guerra cultural. Cultura da morte, aqui, funciona como codinome do movimento progressista. Eles começam a guerra. Quando os cristãos respondem a uma agressão, são eles que saem culpados. O ódio, característico do sistema da cultura da morte, é equiparado à análise da resistência cristã, que diz que o ódio é um pecado a ser confessado. O que a cultura da morte chama de paz é, na verdade, a rendição do adversário. O que se quer é que não haja oposição às suas ideias. Quando a oposição existe, ela é chamada de agressão. Da nossa parte, a resistência cristã deve chamar de paz a ordem debaixo da verdade. Não é uma impressão só brasileira. Vários autores dizem o mesmo, e os slides da palestra ficariam disponíveis nos vídeos, no YouTube e na Éden+.

A discussão começa no Éden

Essa questão não nasceu nas redes. Começa no Éden. Deus foi o primeiro, entre aspas, perturbador da ordem social, porque denunciou o pecado de Adão, trouxe-o à luz, corrigiu, condenou e plantou com as próprias mãos a inimizade entre as duas sementes. O pastor Allen Porto já havia lembrado, na mesma conferência, a semente da serpente e a semente da mulher. Regenerados e não regenerados estão em conflito perpétuo neste mundo.

A imagem que ajuda a ver isso é simples, e incômoda. Dentro dos círculos evangélicos, muitas vezes se culpa quem traz à luz um conflito que estava sob a superfície: um desvio doutrinário, um desvio de conduta, um problema latente. A pessoa que mostra a sujeira é responsabilizada pela sujeira e pela situação inconveniente. Teria sido melhor, dizem, se ela não tivesse mencionado que havia um problema. Mas o zelador não é quem suja o chão. Quem aponta a sujeira não é o autor dela.

O Príncipe da Paz, o Senhor Jesus, denuncia a hipocrisia como problema. O título não significa ausência de atrito. A paz de Deus não é ausência de conflito. De Gênesis a Apocalipse há conflito atrás de conflito. O próprio Apocalipse é um livro praticamente repleto de cenas de conflito, guerras e tantas outras coisas, e tudo isso mostra uma cena que se repete ao longo da história: a antítese entre a semente da serpente e a semente da mulher. No mesmo ministério de Cristo estão as bem-aventuranças e os ais.

A ideia bíblica de paz, a que a palavra shalom carrega, não é harmonia social artificial nem ausência de qualquer conflito. É todas as coisas alinhadas sob o Criador, sob a ordem de Deus. Onde existe desalinhamento, a paz bíblica chega primeiro como confronto e depois como descanso. A conquista da terra prometida é um exemplo claro: começa com conflito e termina com paz. Muitas vezes queremos chegar logo à paz sem passar pelo pré-requisito necessário do conflito. Isso exige paciência, estômago e fé.

O estrondo da pedra

Em Daniel há uma passagem útil para essa conversa: o sonho de Nabucodonosor, que Daniel interpreta. A estátua gigante, com cabeça, tórax e as demais seções, representa impérios. Há um trecho que muitas vezes fica de fora das histórias infantis e das explicações de escola dominical, e que é igualmente crucial. Uma pedra cortada não por mãos humanas é lançada sobre a estátua dos impérios da terra, e a estátua é absolutamente estilhaçada. Depois a pedra se torna uma montanha.

A pedra cortada sem mãos é o reino de Cristo. É Cristo. Ela não negocia com a estátua. Ela a esmiúça. A montanha é o reino de Deus sendo estabelecido na terra, e o golpe alcança também o que ali representa o império romano, os pés da estátua. A verdadeira paz vem por meio de uma guerra. O estrondo do império caindo é a sirene do shalom chegando. É assim que isso deve ser visto, inclusive com esperança. Sempre que existe um conflito, não é hora de pânico. É sinal de que coisas boas estão por vir. É um mal necessário, prelúdio de algo bom.

A alternativa costumeira soa piedosa: vamos parar os conflitos; não vamos levantar esses temas na igreja, na roda de amigos, na família; vamos priorizar a harmonia social agora. Isso é trocar o verdadeiro pelo falso. A harmonia social é uma atriz que tenta fazer o papel da paz bíblica, e não deveríamos aceitar imitações. Esta não é uma discussão amigável. É um conflito de ideias, e precisamos de fé para entender que isso é positivo. A pergunta é se cremos de fato ou se apenas dizemos que cremos.

Francis Schaeffer explorou isso abertamente em *O grande desastre evangélico*, o último livro que publicou, em 1984. O mito tem sido usado para desarmar a igreja, sobretudo para desarmá-la da sua ação pelo bem comum no mundo lá fora. E isso acontece, de novo e de novo, nos mesmos três passos.

Como a consciência cristã é inibida

O primeiro passo é renomear o problema. O mal deixa de ser o mal e passa a ser a polarização, normalmente a própria denúncia do mal. O segundo é aplicar o remédio torto: socar a direita e mimar a esquerda. A expressão não é minha; vem de uma discussão longa nos Estados Unidos. Muitas críticas a certos modelos de engajamento cultural descrevem o padrão mais comum, vindo de púlpitos saudáveis em quase tudo, exatamente assim. Saudáveis nas outras questões, mas não nessa análise específica. O terceiro passo é exigir moderação, e a conta recai sempre sobre o mesmo lado.

No fim, igrejas, instituições e grupos colhem silêncio. A consciência cristã é inibida. A janela do debate é deslocada. Lobos dentro de congregações e de grupos são tratados como visitantes curiosos que precisam ser agradados. A ambiguidade é posicionada, de propósito, como maneira de evitar o conflito da polarização.

Quando uma pauta social explode no país, um conflito de proporções nacionais, como o que estava em curso nas duas semanas anteriores à palestra, a posição ambígua e tática é previsível: não vamos fazer juízo de valor; não existe um lado certo; vamos denunciar a polarização. O interessante é onde pedem que não se polarize. Reclamam de dizer a verdade sobre aborto, sobre gênero, sobre família, sobre educação, sobre a autoridade dos pais, sobre as questões sociais e políticas mais urgentes. Quando dizem que não devemos polarizar, a ideia, normalmente, é que não devemos denunciar.

Às vezes o oposto da guerra não é paz e sossego. É rendição e perda. Ainda existir alguma resistência é um bom sinal. É bom que as igrejas tenham uma consciência moral tão aguçada a ponto de se indignar com os absurdos e as injustiças do mundo lá fora. Isso mostra que a consciência ainda está ativa e que estão vivos. Se não estivessem, já estaríamos na rendição e na perda. O inverso disso é avivamento e reforma.

Nem toda recusa da falsa paz é reforma

Nem toda recusa da falsa paz é reforma. Se queremos engajar biblicamente com a sociedade que está diante de nós, dois modelos se apresentam, e os dois falham.

O primeiro é a omissão: culpar a polarização e renunciar por completo ao conflito que está posto. O segundo é a revolução: reagir de forma gutural, totalmente emocional, querer mudança aqui e agora, sem esperar, sem plantar, sem esperar em Deus, sem confiar nele, só partir para cima. Isso é um problema porque a revolução não se baseia na fé. A fé não age por vista. Age nos lugares menos vistos.

O que precisamos é de reforma. A revolução promete resultados rápidos. A reforma pede uma longa obediência conduzida na mesma direção. Pede uma reputação quieta, humilde e clara. Pede que nos contentemos com as persuasões mansas da fé, da aliança e do sacramento. Não bastam resultados instantâneos. É preciso fé para plantar hoje, em eventos como este, em palestras pequenas como esta, e gerar a conscientização e as ações práticas das quais um dia dependem mudanças experimentadas não só pela nossa geração, mas pela geração dos nossos filhos e dos filhos dos nossos filhos. O método é paciente.

A pergunta não é se vamos polarizar. A pergunta é se a nossa recusa da falsa paz, que é o que precisamos fazer, vai ser reforma ou revolução. É escolher entre uma obediência longa e uma impaciência barulhenta. A fé precisa ser bíblica e ativa.

Avivamento, nesse horizonte, é uma igreja desperta para uma batalha real: arrependimento do nosso quietismo e da nossa equivalência moral, uma piedade que crê de fato naquilo que confessa. Reforma é uma ordem pública reconstruída sob o senhorio de Cristo, na família, na educação, na lei, na cultura, em absolutamente tudo. Não basta inspiração. São necessárias instituições estabelecidas.

Quatro compromissos

Dessa convicção seguem quatro compromissos.

O primeiro é clareza doutrinária: defender os absolutos bíblicos sem vergonha.

O segundo é formação. Filhos e igrejas fundamentados em casa e no púlpito, com uma cosmovisão que não é terceirizada para o Estado.

O terceiro é presença pública, pelo voto, pela cultura e por declarações públicas.

O quarto é entender a política como busca de justiça, e não apenas como estratégia de relações públicas.

É comum, no mundo evangélico, uma análise cultural que trata a política como se o fim último dela fosse a evangelização. O raciocínio segue assim: se as pessoas veem o nosso engajamento cultural como algo que afasta a nova geração da igreja, então devemos parar. Muitos culpam a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, ou a eleição de Jair Bolsonaro, no Brasil, anos atrás, como se fossem a causa de tanta gente da nova geração abandonar as igrejas. A conclusão apresentada como lógica é que precisamos abandonar o engajamento público em nome da evangelização dessa geração.

Como se o problema dessa nova geração não fosse o pecado, a carne e o mundo. Esse sempre foi o mesmo problema. O que muda são os bodes expiatórios. O engajamento público na política não deve ser visto somente pela lente da evangelização, mas pela lente da busca pela justiça.

Também não sabemos como as gerações futuras vão interpretar o nosso engajamento de hoje. Só porque a geração atual de jovens reclama da nossa oposição ao aborto, não quer dizer que a geração de daqui a cinquenta anos não vá tratar como heróis os crentes que se levantaram contra esse mal hediondo. Não é porque a geração atual reclama dos cristãos que resistem à ideologia de gênero que, daqui a cinquenta ou cem anos, a geração do futuro não vá olhar para trás e pensar: aqueles que resistiram em 2026 são os verdadeiros heróis. Gerações futuras muitas vezes leem cada um de nós, e o nosso lugar na esfera pública, de um modo muito diferente. O compromisso precisa de uma lente maior do que a da evangelização sozinha.

A discussão não é amigável. A polarização bíblica não deve ser vista como o problema. A rendição, sim. O amor ao próximo chama o mal pelo nome. Não equalizamos sequestrador e sequestrado. O estrondo da pedra é a sirene do shalom, e o amor cristão pelo próximo precisa de aplicação prática.

Fica a pergunta. Onde, na sua igreja ou no seu ministério, na família, no grupo de amigos, na igreja local, nas instituições e coalizões das quais você faz parte, a paz social está exigindo de você o óbito da verdade? A escolha é unidade na verdade, e não unidade na ambiguidade.

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