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A Lei é Rei: Como a Bíblia Molda Nossa Visão da Lei e do Governo Civil

há 11 minutos
16 min de leitura

Por Levi Secord


Nota do editor: Este ensaio é adaptado do livro de 2025 Servant Not Savior: An Introduction to the Bible's Teaching About Civil Government (Servo, Não Salvador: Uma Introdução ao Ensino Bíblico Sobre o Governo Civil).


Os princípios de que “ninguém está acima da lei” e de que “somos uma nação de leis” estão cravados na consciência americana. De onde vieram? Na nossa ignorância histórica, há quem presuma, sem razão, que essas ideias sempre foram comuns. Secularistas têm se empenhado em distorcer e destruir a história ocidental, na tentativa de nos envergonhar da nossa herança. Gary Amos insiste na importância de conhecer essa história: “Para onde levaremos a América depende, em parte, de onde pensamos que ela veio.” [1] O debate sobre o passado é, no fundo, um debate sobre o futuro.


Qualquer estudo honesto da história mostra o impacto profundo do cristianismo no mundo, sobretudo na política. Durante séculos, reis e imperadores eram considerados acima da lei. Essa filosofia política veio a ser chamada de direito divino dos reis. [2] Acreditava-se que os governantes tinham autoridade inquestionável porque mantinham alguma ligação com o divino. Fosse a deificação do Faraó, de César ou de outro monarca, a autoridade deles tornava-se indiscutível. Como Deus falando do alto do monte, a palavra do rei era a lei. Ele era a lei. Mas será que esse pensamento é bíblico?


Essa filosofia (o rei é a lei) começou a se desfazer com a assinatura da Magna Carta em 1215. O rei João da Inglaterra foi forçado a assinar o documento que o colocava, mesmo sendo rei, sob a autoridade da lei (incluindo os Dez Mandamentos). Na Magna Carta, a lei estava acima do rei. O documento também estabelecia que o rei deveria proteger e respeitar os direitos individuais do seu povo. Essas ideias, embora formalmente adotadas com a Magna Carta, continuaram controversas. Alguns ainda defendiam o direito divino dos reis, que situava a realeza acima da lei.


Então entra em cena Samuel Rutherford (1600–1661), ministro presbiteriano escocês. Rutherford serviu como teólogo de Westminster e ajudou a formular a grande Confissão de Fé de Westminster. Também escreveu um livro chamado Lex Rex, latim para “a lei é rei”. Naquela época, o debate na Inglaterra girava em torno de se o rei era a lei (Rex Lex) ou se a lei era rei (Lex Rex). A disputa era sobre qual autoridade era superior: o rei ou a lei. A lei escrita estava sujeita à palavra do rei, ou o rei estava sujeito à lei? A partir da Escritura, Rutherford argumentou que a lei, em última análise, procede de Deus; portanto, o rei deve submeter-se a ela. O livro de Rutherford foi banido, mas o argumento prevaleceu. Sua obra influente moldou o direito consuetudinário britânico (common law), o pensamento de John Locke e, por fim, as Colônias Americanas. [3]


Sem o trabalho desse pastor escocês, não reconheceríamos ideias como “somos uma nação de leis” e “ninguém está acima da lei”. Lex Rex é mais uma forma pela qual o cristianismo reformou a política do mundo. Na América, os representantes eleitos ainda juram defender e sustentar a Constituição (a lei), e a autoridade deles lhes é delegada por essa lei. Na América, a lei ainda é rei.


Qual lado desse debate está certo? O que é superior, a lei ou os reis? Deuteronômio 17.14–20 demonstra que os reis estão sob a autoridade da lei. O texto ensina a superioridade da lei ao mostrar como os reis sobem ao poder, a necessidade de obedecerem à lei e a igualdade deles com seus concidadãos. Estabelecidos esses princípios, este capítulo examina se tais verdades valem fora de Israel e a origem divina da lei.


Como os reis se tornam reis? (Dt 17.14–15)


Como os governantes sobem ao poder? A Bíblia oferece duas respostas complementares. Em primeiro lugar, em textos como Romanos 13.1–7, somos informados de que Deus nomeia os governantes. Ele é soberano sobre a ascensão e a queda de nações, reis e impérios. Essa soberania alcança até governantes pagãos e incrédulos (Dn 2.31–45). Todo governo é, em última análise, instituído por Deus e prestará contas ao Senhor. Ainda assim, essa verdade não responde como um governo deve ser formado no decorrer da história. Ao longo do tempo, conquistadores se levantaram e tomaram o que puderam. Será que a força faz o direito?


Isso aponta para o segundo modo pelo qual a Bíblia fala da formação dos governos: o consentimento dos governados, o povo escolhendo seus governantes. Deuteronômio 17.14–15 fala tanto do papel de Deus quanto do papel do povo na escolha do quando e do quem de um rei. Israel inicia o processo dizendo: “porei sobre mim um rei” (17.14); depois Deus concede permissão e ele próprio escolhe o rei (17.15). Enquanto as duas coisas não acontecessem, não haveria rei em Israel. O povo precisa primeiro pedir um rei; depois, Deus o concede.


Pedro enfatiza o papel do povo na formação de um governo ao chamar o Estado de “instituição/criação humana” (1Pe 2.13). Deus é soberano, e ainda assim o povo tem um papel na criação do Estado. Esse duplo sentido de como os governantes sobem ao poder aparece ao longo da história de Israel. O povo exige um rei, Deus escolhe Saul, e então o povo firma aliança com Saul como seu rei (1Sm 8–11). Saul não é rei até firmar aliança com o povo. O povo precisava consentir primeiro; só então ele seria plenamente o rei. Mais tarde, Deus escolhe Davi como o próximo rei (1Sm 16), mas ele não pode subir ao trono enquanto Saul não morrer e o povo não firmar aliança com ele (2Sm 5). Há anos entre a unção de Davi e o estabelecimento de sua monarquia por meio de uma aliança com o povo. Sem aliança, não há reinado. Resumindo: um governo exige algum nível de consentimento (representado aqui por uma aliança) da parte dos governados. Não basta declarar “eu sou o rei” e esperar que todos se submetam.


2 Crônicas 22–23 deixa ainda mais clara a necessidade desse consentimento. Acazias foi feito rei pelos “moradores de Jerusalém” (2Cr 22.1). Mais uma vez, o povo escolheu um rei dentre si. Deus opera soberanamente ao nomear o rei por meio do consentimento do povo. Quando Acazias morre, sua mãe Atalia toma o trono matando o restante da linhagem real (2Cr 22.10–12). Em desafio à tirania dela, o povo escondeu um da linhagem real, Joás, durante anos. Chegado o tempo, o povo o declarou o rei legítimo, firmando aliança com ele e executando Atalia por sua usurpação ímpia do trono (2Cr 23). A mera reivindicação de autoridade por Atalia, que ficou sem contestação por anos, não bastou para fazê-la a governante legítima. Afirmações de poder e o uso da espada não constituem um governo. O povo tem voz sobre quem o governa. Biblicamente, isso se formaliza por meio de uma aliança.


Desses textos tiramos duas verdades importantes sobre o Estado. Em primeiro lugar, certo nível de consentimento dos governados é necessário para a legitimidade de qualquer Estado. Em segundo lugar, os governos se formam por meio de alianças (ou pactos, constituições etc.) que estabelecem as responsabilidades dos governantes para com seus cidadãos e dos cidadãos para com seus governantes. Os protestantes afirmam essa realidade há séculos. Os pactos dos primeiros assentamentos americanos, por exemplo, foram modelados segundo a ideia bíblica de aliança. [4] Os protestantes também afirmam que, quando os governantes violam gravemente essas alianças, tais atos constituem tirania e justificam a revolução. [5] Uma revolução é um ato dos governados que retiram seu consentimento em resposta a uma tirania escandalosa.


Como alguém se torna rei? Deus opera por meio da maquinaria da história para levantar governantes, e o povo oferece seu consentimento para ser governado (e protegido) por eles. O melhor modelo bíblico para o povo oferecer esse consentimento é uma aliança, ou pacto, que estabelece os direitos e as responsabilidades do rei e dos cidadãos. Desse modo, o rei fica sob aquela lei (isto é, sob uma aliança política, um pacto ou uma constituição).


A Lei é Rei

A submissão do rei à lei (Dt 17.18–19)


Na Torá, Deus exigiu que os reis de Israel escrevessem sua própria cópia da aliança da lei. Ao exigir isso, Deus instruía o rei quanto à necessidade de obedecer à lei de Deus. Deuteronômio 17.18–19 diz:


Quando se assentar sobre o trono do seu reino, escreverá para si um traslado desta lei num livro, do que está ao cuidado dos sacerdotes levitas. E o terá consigo e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o Senhor, seu Deus, a fim de guardar todas as palavras desta lei e estes estatutos, para os cumprir.

Uma das primeiras tarefas do rei era escrever à mão sua própria cópia da lei e, depois, lê-la todos os dias da sua vida. Essa prática mirava a obediência do rei à lei. Na Bíblia, o termo lei é usado de maneiras diferentes. Às vezes refere-se à aliança; outras, a padrões legais e morais. Aqui, Deus tem os dois usos em mente. O rei representa o povo diante de Deus e, por isso, deve guardar a aliança para o bem de toda a nação. Quando Israel teve reis justos, as coisas lhes correram bem. Quando teve reis ímpios, rebelou-se e caiu sob juízo. Para Israel, a importância de ter um rei justo era questão de vida ou morte.


Essa prática, porém, ia além de simplesmente guardar a aliança com Deus. Incluía também o rei obedecer a “todas as palavras desta lei e estes estatutos”. O rei tinha de guardar os mesmos estatutos legais que estava encarregado de fazer cumprir. O rei, como o restante de Israel, estava sob a lei de Deus. A lei era rei, mesmo sobre o rei de Israel.


Quando Saul foi escolhido como rei, Samuel falou ao povo sobre “os direitos e deveres da realeza” (1Sm 10.25). Como rei, Saul tinha certos deveres para com Deus e para com o povo. Ser rei não era um cheque em branco para fazer o que quisesse. Mais uma vez, a lei era autoridade até sobre o rei. Ele está obrigado a guardá-la diante de Deus e de seu povo. O rei não está acima da lei, mas sob ela. Quando Saul e Davi quebram a lei, por exemplo, são declarados culpados (1Sm 13.8–23; 2Sm 12.1–13). Por quê? Porque o rei não está sobre a lei, mas sob ela. A ideia de que ninguém está acima da lei, inclusive o rei, vem diretamente da Bíblia.


A igualdade do rei (Dt 17.20)


O rei está sob a lei. E, como afirma Deuteronômio 17.20, é igual aos seus concidadãos. À medida que o rei estuda a lei, Deus pretende que “o seu coração não se eleve sobre os seus irmãos” (17.20). Sob a lei, o rei não está acima de ninguém. Há uma igualdade fundamental de cada cidadão sob o domínio da lei. Amos explica:


Em termos humanos, nenhum homem é mais alto ou melhor do que qualquer outro homem. Nenhum homem é senhor sobre qualquer outro homem. Nenhum homem pode se interpor entre Deus e outro homem. [6]

Essa igualdade é própria do cristianismo. Os gregos antigos não criam numa igualdade fundamental. Pensadores como Aristóteles e Platão, com base no politeísmo deles, criam que “todos os homens [são] inerentemente desiguais”. [7] A ideia de igualdade parecia injusta aos antigos. [8] É aqui, mais uma vez, que a teoria política cristã mudou o mundo para melhor.


A igualdade está enraizada em nosso relacionamento com Deus e em nosso status sob a lei eterna dele. Todos são julgados imparcialmente por Deus; por isso, o Estado deve executar imparcialmente a justiça de Deus. Como a justiça é o ministério primário do Estado, a Bíblia exige imparcialidade na execução da justiça. Considere os seguintes versículos:


Não seguirás a multidão para fazeres o mal; nem numa demanda falarás, tomando parte com a maioria para torcer o direito. Nem ao pobre favorecerás na sua demanda (Êx 23.2–3).
Não farás injustiça no juízo. Não serás parcial para com o pobre, nem deferente para com o grande; com justiça julgarás o teu próximo (Lv 19.15).
Não sereis parciais no juízo. Tanto ouvireis o pequeno como o grande. Não temereis a face de ninguém, porque o juízo é de Deus (Dt 1.17).
Não torcerás a justiça. Não farás acepção de pessoas, nem aceitarás suborno, porque o suborno cega os olhos dos sábios e perverte as palavras dos justos (Dt 16.19).

Parcialidade significa julgar alguém segundo o seu “rosto”. [9] É pré-julgar alguém, positiva ou negativamente, com base em quem a pessoa é. A parcialidade no juízo é o oposto exato da igualdade perante a lei. Deus nos diz que não mostremos parcialidade nem ao rico nem ao pobre. Nem ao poderoso nem ao fraco. Nem ao grande nem ao pequeno. Nem a reis nem a cidadãos. A parcialidade é uma perversão da justiça. O Novo Testamento também condena a parcialidade (Cl 3.25; 1Tm 5.21; Tg 2.1–9) porque ela é contrária à própria natureza de Deus (Dt 10.17; 2Cr 19.7; At 10.34; Rm 2.11; Ef 6.9). Tratar um rei por um padrão diferente do de seus cidadãos viola um princípio central da justiça de Deus. Por isso, Deus ordenou ao rei de Israel que escrevesse a lei, a fim de que reconhecesse que não estava “acima” de seus irmãos. Ele é igual aos seus compatriotas diante de Deus e sob a lei.


Mas isso não é só para Israel?


Toda vez que se colhem verdades do Antigo Testamento, alguém objeta: “Mas isso é só para Israel; não estamos sob a Antiga Aliança.” É gloriosamente verdade que, com a obra de Cristo, entramos numa nova era da história redentora. Passamos das sombras para a substância que é Cristo. Podemos não estar sob a Antiga Aliança como ela era, mas os primeiros cinco livros da Escritura continuam sendo a Palavra autoritativa de Deus.


A vinda de Cristo não apaga as palavras de Deus, mas as cumpre. Embora haja uma profunda mudança pactual causada pela obra de Cristo, toda a Escritura continua sendo inspirada por Deus, e toda ela é proveitosa para nos habilitar para toda boa obra (2Tm 3.16–17). O Antigo Testamento não é menos Escritura do que o Novo. A Palavra de Deus é autoritativa sobre toda a vida. Essas coisas foram escritas para nós, sobre quem chegaram os fins dos séculos (1Co 10.11). As alianças podem mudar, mas os padrões morais de Deus são perfeitos, universais, eternos e imutáveis. A lei, como padrão moral, tem aplicação duradoura mesmo à nossa era da história redentora (1Tm 1.8–11).


As verdades sobre o Estado encontradas no Antigo Testamento não ficam restritas a Israel; foram escritas para nossa instrução. A Bíblia oferece algum exemplo da lei, como padrão legal/moral, aplicada fora do povo da aliança de Israel? Sim. Deus fala por meio do profeta Isaías às nações sobre como elas “contaminaram” a terra ao quebrarem as “leis”, os “estatutos” e a “aliança eterna” (Is 24.5). Jonas, do mesmo modo, confrontou o povo gentio de Nínive com o seu pecado, e até o seu rei se arrependeu (Jn 3.6). Sempre que pronuncia juízos sobre reis gentios, Deus o faz segundo o seu caráter moral, revelado em sua lei.


Passando ao Novo Testamento, considere a confrontação de João Batista com o rei Herodes Antipas. Seu pai, o rei Herodes, o Grande, não era judeu étnico e, por isso, nunca foi aceito pelos judeus como seu rei legítimo. [10] Ainda assim, Herodes governava os judeus dentro da estrutura romana de governo. A autoridade de Herodes Antipas vinha do Império Romano. Seu reinado estava fora da Antiga Aliança. Em Mateus 14.3–4, porém, João Batista confronta Antipas por violar a lei de Deus:


Porque Herodes, havendo prendido João, o ligou e o meteu no cárcere, por causa de Herodias, mulher de Filipe, seu irmão; porque João lhe dizia: Não te é lícito possuí-la.

João Batista acusa um governante romano de imoralidade sexual citando a lei bíblica. O caso é simples: “É contra a lei você ter a mulher do seu irmão.” Por mais chocante que isso soe a alguns hoje, João invoca o código legal de Levítico para repreender um governante secular (Lv 18.16; 20.21). Embora tetrarca romano, Herodes ainda está sujeito à lei de Deus. Ele a transgrediu e precisa arrepender-se. Mesmo sendo um governante gentio, o rei Herodes Antipas não está isento da lei de Deus.


De onde vem a lei?


A lei é rei, mas de que lei estamos falando? De onde essa lei procede? Cada sociedade pode fazer suas próprias leis com base em suas crenças distintas? Francis Schaeffer explica o que está em jogo nessa pergunta: “Se não há absolutos pelos quais julgar a sociedade, então a sociedade se torna absoluta.” [11] No que diz respeito às nossas discussões, se a lei é determinada pela sociedade (sejam reis, representantes ou o povo), a moralidade se torna relativista. A sociedade se torna Deus. Nesse mundo, a lei vira expressão de poder arbitrário; quem tem o poder determina o que é certo e o que é errado. Assim como os cristãos se opuseram à supremacia dos reis sobre a lei, devemos também rejeitar presidentes, tribunais, congressos e a sociedade como fonte da lei. A democracia por si só não é fundamento mais seguro para a lei do que a monarquia.


Para que uma teoria jurídica seja cristã, deve começar com a verdade de que a lei (o padrão da moralidade) procede de Deus. Ao contrário do clichê popular, podemos legislar sobre a moralidade - e de fato o fazemos. Toda lei se baseia em alguma visão de ética e moralidade. Toda lei legisla moralidade. Portanto, toda lei se assenta sobre algum fundamento moral. A única pergunta é: que fundamento usaremos? Se cremos que a moralidade é relativa, então as leis também o são. Por outro lado, se há um padrão moral universal, então devemos alinhar nossas leis a ele.


Para que a moralidade seja universal, deve haver um Deus universal que a fundamente. [12] Para que os seres humanos conheçam os padrões de Deus, esses padrões devem ser-lhes revelados por Deus. A tradição jurídica cristã geralmente fala de duas maneiras pelas quais Deus nos revela sua lei: na natureza e na Escritura. Assim, temos a lei natural e a lei bíblica. Ambas são revelações de Deus. A natureza, por si mesma, nada revela; antes, Deus revela seus padrões, que estão inscritos na criação (Rm 1.16–2.16). Por isso, a humanidade fica sem desculpa. Em nosso pecado, porém, a humanidade distorce, perverte e suprime essa revelação. A lei natural, como a revelação natural, não é suficiente. Se o fosse, Deus não nos teria dado a lei bíblica. Mesmo antes da queda do homem no pecado, Deus falou verbalmente a Adão, instruindo-o sobre como viver (Gn 2.15–17). A revelação verbal sempre foi necessária para que o homem soubesse o certo do errado.


Hoje, na igreja americana, há um debate acirrado entre os que defendem a lei natural e os que argumentam em favor da lei bíblica. Para alguns, a lei natural é tudo de que o Estado precisa para governar com retidão. Assim, defendem a suficiência da revelação natural com exclusão da revelação especial encontrada na Escritura. Ao excluir a Escritura da vida cívica, esses cristãos acabam soando estranhamente como secularistas. Outros argumentam que a lei bíblica é necessária para um código jurídico justo. Com frequência, nesse debate, a lei natural e a lei bíblica são retratadas como dois fundamentos concorrentes. Partidos de ambos os lados agem como se houvesse dois padrões diferentes de moralidade, ambos procedentes de Deus e de algum modo contraditórios entre si. Esse pensamento revela ignorância do pensamento político cristão e protestante.


Da Magna Carta ao direito consuetudinário britânico, o Ocidente tem apelado tanto à lei bíblica quanto à lei natural como essenciais às nossas leis cívicas. [13] O sistema jurídico americano foi construído sobre a tradição do common law britânico. Quer o admitamos ou não, nosso sistema ainda é informado tanto pela lei natural quanto pela lei bíblica. De certo modo, ainda somos governados por uma compreensão cristã da lei, e por isso devemos ser gratos. [14]


Na Declaração de Independência, por exemplo, os pais fundadores mencionam as “Leis da Natureza e do Deus da Natureza” como fundamento de nossa liberdade. Alguns pensam, equivocadamente, que isso é um apelo a uma compreensão deísta de Deus e da lei natural. Citando fontes primárias, Amos demonstra que tais expressões foram usadas durante séculos no pensamento político cristão. [15] Linguagem semelhante aparece até na Confissão de Fé de Westminster. Amos escreve que essa terminologia (leis da natureza e do Deus da natureza) era “uma expressão jurídica para a lei de Deus revelada por meio da natureza e sua lei moral revelada na Bíblia”. [16] Nossa nação foi fundada tanto sobre a lei natural quanto sobre a lei bíblica. As duas são feitas para andar juntas.


William Blackstone, que escreveu um dos comentários mais influentes sobre o direito consuetudinário britânico, afirmou a necessidade tanto da lei natural quanto da lei bíblica. Sua obra influenciou grandemente as colônias americanas e nossos pais fundadores. Blackstone descreveu as origens da lei britânica desta forma:


Sobre esses dois fundamentos, a lei da natureza e a lei da revelação [Escritura], dependem todas as leis humanas… a lei da natureza e a lei de Deus. [17]

Blackstone não está sozinho. Tomás de Aquino (favorito daqueles que buscam tratar a lei natural como independente da lei bíblica) escreveu o seguinte sobre a superioridade da lei bíblica:


A lei escrita é… dada para a correção da lei natural, seja porque supre o que faltava na lei natural, seja porque a lei natural foi pervertida nos corações de diferentes homens, quanto a diferentes matérias, de modo que pensavam ser boas aquelas coisas que são naturalmente más, perversão que precisava de correção. [18]

A lei natural é insuficiente. Precisa da lei bíblica. Amos resume essa realidade: “É incorreto, ao menos no que diz respeito a Aquino e Blackstone, dizer que a tradição da ‘lei da natureza’ tornou a ‘lei natural’ independente do controle da Escritura.” [19] Não há razão histórica ou bíblica sólida para tratar as duas como contrárias ou independentes uma da outra. Amos, comentando as crenças de Rutherford, escreve:


Assim, segundo Rutherford, a autoridade do governo repousa sobre dois fundamentos, a lei divina e a lei da natureza, e as duas leis são uma. [20]

A lei é rei e, portanto, os governantes estão sob a sua autoridade. Essa lei não é outra senão a própria lei de Deus. Sua origem divina é precisamente o motivo pelo qual a lei transcende reis e culturas e é universalmente vinculante. Nenhuma criatura pode reivindicar isenção dos padrões morais universais de Deus. Assim, nossa elaboração de leis nunca deve ser arbitrária. Nenhum rei, senado, presidente ou maioria tem o direito de aprovar um projeto que contradiga a lei de Deus. Reivindicar a prerrogativa de fazer leis de modo autônomo é usurpar um poder que pertence somente a Deus.


Toda lei afirma alguma forma de moralidade: desde limites de velocidade até leis sobre o casamento. Por isso, moralidade e lei são inseparáveis. Ambas exigem um fundamento autoritativo e universal. O fundamento de toda lei justa é a lei de Deus. Por essa razão, o povo de Deus está obrigado, por dever, a opor-se a leis arbitrárias e tirânicas. Ao longo da história, de Moisés e Daniel a Ambrósio de Milão e aos Reformadores Protestantes, [21] o povo de Deus se opõe a leis malignas, arbitrárias e injustas.


A lei é rei, e a lei de Deus é o fundamento de todas as leis verdadeiras. Passagens como Deuteronômio 17.14–20 nos ensinam que ninguém está acima da lei porque a lei procede de Deus. As palavras de João Batista a Herodes Antipas demonstram sua aplicação universal. Por meio dessa doutrina, o cristianismo mudou a política e o mundo para melhor. A ideia de Lex Rex responsabilizou tiranos, avançou a justiça e até ajudou a fazer nascer uma nova nação.


Os cristãos precisam lembrar a própria história e apreciar os avanços do pensamento político cristão. A história revisionista tem mentido para nós por tempo demais. O cristianismo não é uma força opressora; é libertador, porque confina o poder do Estado. A herança do constitucionalismo americano, por sua vez, está enraizada numa compreensão protestante da lei e da aliança. [22] A igreja precisa recuperar essa visão e declará-la à nossa era confusa. Somente ao compreender corretamente nossa história poderemos traçar um curso fiel para o futuro. É tempo de a igreja falar com clareza: a Palavra de Deus é autoritativa sobre toda a vida. Sua lei é perfeita, e todos estamos sob ela. Essas verdades transformaram o mundo uma vez; podem fazê-lo outra vez.


Sobre o autor


Levi Secord é pastor fundador da Christ Bible Church em St. Paul, Minnesota. Obteve o mestrado em Divindade (2013) e o doutorado em Ministério Educacional (2022) no Southern Baptist Theological Seminary. Apresenta um podcast sobre a cosmovisão cristã e tem várias publicações, entre elas o livro Servant Not Savior: An Introduction to the Bible's Teaching About Civil Government. Levi e sua família vivem na região de St. Paul.


Notas


[1] Gary Amos, Defending the Declaration

[2] Francis Schaeffer, A Christian Manifesto

[3] Schaeffer; Amos sobre Lex Rex

[4] Donald Lutz, The Origins of American Constitutionalism

[5] Amos sobre revolução

[6–8] Amos sobre igualdade

[9] David W. Pao sobre parcialidade

[10] R. T. France sobre Herodes

[11] Schaeffer, How Should We Then Live?

[12] Schaeffer, He is There and He is Not Silent

[13–16] Amos sobre lei natural/bíblica

[14] Joseph Boot, The Mission of God

[17] Blackstone via Amos

[18] Tomás de Aquino via Amos

[19–20] Amos / Rutherford

[21] Schaeffer

[22] Lutz


Artigo traduzido por Éden Publicações e publicado com permissão de Christ Over All.


Todos os direitos reservados por Christ Over All e Levi Secord.


Leia o original em inglês aqui.

 
 
 

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