
A política já entrou na sua igreja
Pregue ou não sobre política, ela já está dentro das nossas igrejas. A pergunta é se o pastor vai proclamar o senhorio de Cristo ou se render em silêncio à cultura.
A política já entrou na sua igreja. Não bateu à porta. Entrou pela porta da frente, senta-se no seu templo todo domingo e catequiza os seus filhos pelo celular nos outros seis dias da semana. A única pergunta que resta é se o homem no púlpito vai continuar fingindo que não é bem assim.
Há décadas, pastores demais que se dizem “biblicamente ortodoxos” fazem o número dos três macacos: não vejo o mal, não ouço o mal, não falo do mal. Olhos tapados quando a cultura redefine o casamento. Ouvidos tapados quando ela declara que meninos podem virar meninas. Boca tapada quando ela exige o direito de matar crianças no ventre. Esse número nunca foi fidelidade. Hoje já nem tem credibilidade, se é que algum dia teve.
Em 18 de janeiro de 2026, uma turba esquerdista, da qual fazia parte o ex-âncora da CNN Don Lemon, invadiu um culto na Cities Church, em St. Paul, Minnesota, gritando palavras de ordem contra o ICE (a agência federal de imigração) e, por algum motivo desconhecido, “Mãos ao alto! Não atire!”. Os membros, apavorados, acharam que havia um atirador ativo no prédio, e pais foram impedidos de chegar até os filhos.
Aqueles pais tinham todos os motivos para ter medo. Menos de cinco meses antes, em 27 de agosto de 2025, um atirador havia atacado a igreja e escola católica Annunciation, em Minneapolis, matando duas crianças e ferindo outras 17 pessoas, 14 delas crianças. Quando uma turba invade um templo gritando ordens desse tipo, pais cristãos não podem se dar ao luxo de supor que é só encenação.
Os líderes da turba escolheram um nome para si: “Os 39 Justos”. Revestiram de linguagem moral a profanação do culto e a quebra da paz. É exatamente esse o ponto. A cultura não é neutra em relação à religião. Ela tem uma religião, tem um sacerdócio e está perfeitamente disposta a marchar para dentro da sua igreja para pregá-la. O pastor que insiste em manter a igreja “fora da política” não manteve a política do lado de fora. Ele entregou o próprio território.
O drible do “nós só pregamos o evangelho”
A desculpa mais comum para o silêncio pastoral soa piedosa: “Nós só pregamos o evangelho”. É um drible. Permite que o pastor pareça espiritual enquanto se esquiva de toda pergunta que possa lhe custar honrarias mundanas, como uma igreja em crescimento ou um lugar no palco do próximo congresso.
Ninguém fez mais para dar respeitabilidade intelectual a essa desculpa do que Tim Keller. Keller teve enorme influência, e a influência que exerceu sobre uma geração de pastores urbanos e “centrados no evangelho” é justamente o problema. O modelo dele ensinou aos jovens ministros que a maior virtude pastoral era não dar motivo de objeção à elite secular instruída. O objetivo era ser o tipo de cristão que o New York Times publicaria.
Para ele, funcionou. Em seu artigo de 2018 sobre os cristãos e o sistema bipartidário americano, Keller admitiu o ponto essencial: os pastores não podem simplesmente “pregar o evangelho” e evitar toda discussão política, porque o silêncio sustenta o status quo, como provaram as igrejas que deixaram de condenar a escravidão. Depois de admitir isso, construiu todo um esquema cujo efeito prático foi manter os pastores “acima da briga” justamente nas questões em que o status quo está matando pessoas.
Pouco antes da eleição presidencial de 2020, Keller foi ao então Twitter ensinar aos cristãos que eles “não podem dizer a outros cristãos 'nenhum cristão pode votar em...' ou 'todo cristão deve votar em...'” sem um mandamento bíblico específico. Quando cristãos pró-vida reagiram, ele esclareceu: “A Bíblia me diz que o aborto é pecado e um grande mal, mas não me diz qual é a melhor maneira de diminuir ou acabar com o aborto neste país”.
Keller chamou o aborto de “grande mal” e, na mesma frase, disse aos cristãos que as Escrituras não oferecem orientação sobre se a lei deve permiti-lo. Imagine aplicar essa lógica a qualquer outra forma de derramamento de sangue inocente. A Bíblia não se limita a dizer que o homicídio é pecado; ela diz que o magistrado civil traz a espada para castigar o que pratica o mal (Rm 13.4). A questão de saber se a lei deve proteger uma criança de ser morta não é uma penumbra qualquer que talvez emane do texto. Proteger crianças é a função mais básica do governo. O enquadramento de Keller deu a milhões de evangélicos um salvo-conduto para votar na chapa mais agressivamente pró-aborto da história americana. E para se sentirem muito sofisticados ao fazê-lo.
Esse é o legado dele para pastores demais: um conjunto elegantemente frouxo de razões para jamais dizer o que é difícil de dizer. A postura do “só pregamos o evangelho” virou o refúgio de ministros que tinham medo de confrontar a cultura que de fato existe, e não a cultura educada e abstrata do seu confortável mundo de fantasia.
Teologia de perdedor no púlpito
O pastor e escritor Michael Clary deu nome a essa doença: “teologia de perdedor”. Em seu livro, Loser Theology: Why the Weak Will Not Inherit the Earth [Teologia de perdedor: por que os fracos não herdarão a terra], Clary argumenta que os cristãos americanos foram condicionados a tratar a fraqueza, o recuo e a derrota como a postura mais santa, de joelhos não apenas diante de Deus, mas diante dos homens.
Como diz Clary, o problema da teologia de perdedor
não é que ela afirme coisas descaradamente falsas; o problema é que ela se concentra demais no ensino bíblico sobre o sofrimento e a fraqueza, tratando-o como a “teologia correta”, o “evangelho mais verdadeiro de nosso Senhor” e “somos chamados a ser fracos”.¹
O fruto é previsível: a teologia de perdedor “condicionou os cristãos a sentir culpa por nos defender e afirmar o senhorio de Cristo sobre toda a vida”.²
É exatamente isso que o púlpito silencioso produz. Os pastores que pregam a “teologia de perdedor” dizem ao seu povo que perder a cultura é prova de fidelidade, que a influência cultural é suspeita por natureza e que a resposta mais semelhante à de Cristo diante de um mal que avança é escrever um artigo ponderado sobre o exílio para o site da TGC (The Gospel Coalition). As Escrituras dizem aos homens: “portai-vos varonilmente, fortalecei-vos” (1Co 16.13). O pastor silencioso os ensina a pedir desculpas por existir.
Mas essas igrejas ao menos ensinam as Escrituras?
Pressione um pastor silencioso sobre qualquer questão difícil e você ouvirá alguma versão da mesma frase: “Nós só ensinamos a Palavra de Deus”. O trunfo definitivo. Não dá para responder com um “sim, mas...”, certo? Dá, sim.
A pesquisa State of Theology 2025, do Ligonier Ministries e da Lifeway Research, fez perguntas básicas sobre a fé a pessoas que se identificam como evangélicas, justamente as que lotam esses templos. Os resultados são, literalmente, condenatórios. Cinquenta e três por cento disseram que o Espírito Santo é uma força, e não uma pessoa. Sessenta e quatro por cento disseram que as pessoas nascem inocentes. Cinquenta e três por cento disseram que a maioria das pessoas é boa por natureza. E 47% disseram que Deus aceita a adoração de todas as religiões.
Chame essas respostas pelo nome que a igreja sempre lhes deu. A maioria dos que se dizem evangélicos é simplesmente herege. É uma acusação dura, mas baseada em fatos.
Então precisamos perguntar sem rodeios: essas igrejas ao menos ensinam as Escrituras? A Trindade, o pecado original e a exclusividade de Cristo não são temas “políticos”. São justamente as doutrinas que o “nós só ensinamos a Palavra de Deus” deveria garantir. Se a maioria das pessoas nos bancos não consegue afirmá-las, acabamos de descobrir um baita gol contra.
Isso deixa esses pastores reprovados em todos os quesitos. Eles não preparam o seu povo para enfrentar os ídolos da época, porque isso é “político demais”. E também não ensinam as verdades básicas da fé, o que supostamente era a razão de todo esse silêncio. Abriram mão do testemunho público da igreja para proteger o essencial. E depois nos entregaram um essencial oco.
As igrejas tradicionais liberais
Eis a ironia que os pastores silenciosos se recusam a encarar: as igrejas que abandonaram a autoridade das Escrituras nunca tiveram vergonha de falar de política. São barulhentas, organizadas e incansáveis. Você já viu Al Sharpton fugir da pregação política? “Cristãos” de esquerda não têm o menor pudor de pregar política e até entregam seus púlpitos a candidatos democratas. Da mesma forma, políticos de esquerda como James Talarico (para quem a Anunciação foi um endosso ao aborto), Raphael Warnock (com uma postagem de Páscoa que promovia a salvação pelas obras em lugar da fé salvadora) e Adam Hamilton (para quem não cristãos podem ser regenerados depois da morte) fazem questão de usar a doutrina cristã como arma e subvertê-la a serviço da propaganda política.
As denominações tradicionais (as chamadas mainline) passaram décadas torcendo a Palavra de Deus para fazer eco à fúria da época, cobrindo seus compromissos com o marxismo e a degeneração sexual com o que lhes resta de credibilidade da batina. A Igreja Presbiteriana dos EUA (PCUSA) reescreveu sua definição de casamento em 2015. A Igreja Metodista Unida derrubou a proibição de ordenar homossexuais praticantes e suspendeu o veto a “casamentos” entre pessoas do mesmo sexo. A Igreja Unida de Cristo já enviou clérigos para abençoar uma clínica da Planned Parenthood, convidou uma drag queen para o púlpito e publicou orientações para treinar voluntários a obstruir a fiscalização imigratória nas propriedades das igrejas.
Uma pesquisa do PRRI de 2022–23 com mais de 3 mil pastores das igrejas tradicionais constatou que 87% consideravam as questões sociais importantes para o papel da sua igreja, e 79% apoiavam o envolvimento da igreja na ação cívica. Os orcs se mobilizam enquanto a turma do evangelho se angustia com o “nacionalismo cristão”.
Assim, as igrejas apóstatas assumem posições abertas e sem constrangimento sobre as questões sociais mais incandescentes do nosso tempo, enquanto as igrejas que se apegam à infalibilidade e à suficiência das Escrituras e aos credos históricos se encolheram diante de quase tudo o que o mundo rotula de polêmico, porque o mundo mandou. Um lado prega um falso evangelho com agressividade implacável. O outro lado poderia muito bem estar pregando o verdadeiro evangelho por trás de uma máscara N95. Adivinhe qual dos dois tem mais chance de moldar o país?
As questões “políticas” são inegociáveis do evangelho
O mundo, a carne e o diabo disseram aos pastores que temas como a vida, o casamento, a sexualidade, os direitos dos pais e a liberdade religiosa são “políticos demais” para o púlpito. Isso é mentira, e já é hora de chamá-la pelo nome.
Olhe para esses temas pela lente da história da redenção (Criação, Aliança e Consumação) e verá que cada um deles está escrito no texto das Escrituras.
A vida
Deus formou Adão do pó e soprou nele o fôlego de vida. “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.27). Todo ser humano traz a imagem do Criador. O pastor que não defende essa imagem no ventre e, depois, contra a desfiguração da “medicina trans” não está evitando a política; está evitando Gênesis.
O casamento
Deus criou o homem e a mulher um para o outro e os uniu em casamento (Gn 2.24), e escolheu essa união, as duas metades da humanidade feitas uma só carne, para representar a relação entre Cristo e a sua igreja (Ef 5.31-32). Deixar que o mundo redefina o casamento é deixar que ele vandalize o mural vivo do próprio evangelho.
Os direitos dos pais
O casamento dá a Deus o seu povo. Homens e mulheres formam famílias, têm filhos e os criam na fé, geração após geração. Deus ordena aos pais que ensinem a sua Palavra: “tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (Dt 6.7). Como foi Deus quem deu esse dever aos pais, nenhum poder de fora pode violá-lo, nem a secretaria de educação, nem Maura Healey.
Liberdade religiosa e liberdade de expressão
A igreja recebeu a ordem de proclamar Cristo a toda tribo, língua e nação (Mt 28.19-20), e, quando as autoridades proibiram isso, os apóstolos responderam: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29). A liberdade de culto e de expressão é a liberdade de manter a porta aberta para o evangelho.
A história termina onde começa: com a vida, a família e a liberdade aperfeiçoadas. No novo céu e na nova terra, “nunca mais haverá qualquer maldição. Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão” (Ap 22.3). A vida não será apenas protegida; será eterna. As gerações do povo de Deus habitarão com ele para sempre. Adoraremos diante do trono com perfeita liberdade. Quando os cristãos lutam hoje por políticas públicas que protegem a vida, o casamento, a família e a liberdade, oferecem a um mundo que está morrendo um vislumbre do mundo que nunca morrerá.
É por isso que essas causas não são uma distração da pregação do evangelho. Não mantemos a porta aberta para o evangelho e, além disso, buscamos essas coisas. Mantemos a porta aberta para o evangelho buscando-as. O pastor que diz que vai pregar Cristo, mas não a santidade da vida, a preservação do corpo das crianças, o desígnio do casamento ou os direitos dos pais, está pregando um Cristo de quem se arrancaram a Criação, a Aliança e a Consumação.
Você não precisa de um partido. Precisa de coragem.
A próxima desculpa é aquela que os pastores julgam irrespondível: “Não quero amarrar a igreja a um partido político”. Ótimo. Ninguém está pedindo isso.
Você não precisa se amarrar a um partido. Precisa munir o seu rebanho com a verdade e, quando o momento exigir, dar orientações específicas, inclusive sobre quais candidatos e quais propostas submetidas a voto ele deve apoiar. São duas coisas diferentes, e o pastor que finge que são a mesma coisa está se escondendo atrás de um espantalho.
Um partido é uma coalizão de pessoas que vão falhar. Mas um candidato que promete proteger as crianças por nascer e um candidato que promete financiar a destruição delas não são opções moralmente equivalentes, diante das quais os cristãos possam dar de ombros. Uma proposta que consagre o aborto ou redefina o casamento numa constituição estadual não é uma questão sobre a qual as Escrituras se calam. Quando o pastor diz ao seu povo a verdade sobre essas escolhas, não está servindo a um partido. Está servindo às suas ovelhas e à sua nação.
E não se trata do “mal menor”, essa expressão empoeirada que faz todo voto soar como uma aposta mesquinha. Trata-se do que é melhor para o florescimento do indivíduo, da família, da comunidade e do país. “A justiça exalta as nações, mas o pecado é o opróbrio dos povos” (Pv 14.34). O pastor que consegue ver qual caminho imperfeito leva mais na direção da justiça e se recusa a apontá-lo não permaneceu neutro. Abandonou o seu posto.
Alguns pastores já estão fazendo a coisa certa. Na Virgínia, uma coalizão de pastores publicou uma carta aberta ao estado sobre a votação de propostas de emenda constitucional relativas ao aborto e ao casamento. Eles declaram com clareza sua oposição às duas emendas, com base nas Escrituras e no bem comum, orientam os cristãos sobre como votar e apontam todos os leitores para Cristo. É assim que se pastoreia num ano eleitoral: raciocínio claro, orientação inequívoca e o evangelho.
Até a desculpa jurídica está desmoronando. O próprio governo federal agora sustenta que a Emenda Johnson (que proíbe entidades isentas de impostos de apoiar candidatos, e que é flagrantemente inconstitucional) não pode ser aplicada contra igrejas que falam com suas próprias congregações sobre candidatos. Em 21 de setembro, o Departamento de Justiça afirmou ao Tribunal de Apelações do Quinto Circuito que a doutrina da autonomia da igreja impede sua aplicação à fala do púlpito. Seja qual for o resultado no tribunal, o medo do IRS, a Receita Federal americana, sempre foi um disfarce conveniente para o temor dos homens.
“Não sou especialista” é abandono do ofício
A última evasiva é uma desculpa aguada, e muito reveladora: “Não se pode esperar que os pastores se tornem especialistas em tudo”.
A palavra inglesa parson (pároco) vem do latim persona. O ministro era a pessoa da paróquia, o homem de maior confiança e um dos mais completos e instruídos da cidade. Harvard foi fundada porque os puritanos temiam “deixar às igrejas um ministério iletrado quando os nossos atuais ministros jazerem no pó”. Os ministros da época colonial pregavam sermões eleitorais sobre liberdade, tirania, impostos e os deveres dos governantes. A coletânea de 55 desses sermões organizada por Ellis Sandoz prova que esse tipo de pregação era o trabalho ordinário do púlpito protestante, e não uma anomalia. John Witherspoon, ministro presbiteriano, presidiu Princeton, fez parte do Congresso Continental e assinou a Declaração de Independência. Esses homens não diziam “não sou especialista”. Eles se inteiravam das questões que o seu povo enfrentava e das quais a liberdade dependia.
Ninguém exige que um pastor tenha diploma de medicina antes de falar sobre ideologia de gênero, nem diploma de direito antes de falar sobre liberdade religiosa. Espera-se dele o que todo profissional sério faz: estudar as questões que mais diretamente ameaçam as pessoas sob seus cuidados e prepará-las para a batalha. O pastor que diz não ter tempo para entender as forças que estão discipulando a sua congregação terceirizou às cegas o seu papel de principal preparador do rebanho. Isso não é humildade. É abandono do ofício.
Cristo é Rei, e os governantes respondem a ele
Por trás de todas essas desculpas está uma visão apequenada de Cristo. “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). Todas as coisas, “sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades”, foram criadas por meio dele e para ele (Cl 1.16). Ele é “o Soberano dos reis da terra” (Ap 1.5). O Salmo 2 não sussurra aos governantes; ele lhes dá ordens: “Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor” (Sl 2.10-11).
O magistrado civil é “ministro de Deus para teu bem” (Rm 13.4), instituído para castigar os que praticam o mal e louvar os que praticam o bem (1Pe 2.14). A Confissão de Fé de Westminster ensina que Deus, “para a sua própria glória e para o bem público, constituiu sobre o povo magistrados civis, a ele sujeitos”. O governo não é moralmente autônomo, e o pastor que se recusa a dizer ao seu povo quando os governantes violam a lei de Deus dá a entender que o reinado de Cristo termina no cafezinho do saguão.
Os servos de Deus nunca fizeram essa concessão. Natã olhou o rei Davi nos olhos e disse: “Tu és o homem” (2Sm 12.7). Elias disse a Acabe que ele havia perturbado Israel ao deixar os mandamentos do SENHOR (1Rs 18.18). Micaías se recusou a bajular um rei perverso (1Rs 22). João Batista perdeu a cabeça por repreender o casamento ilícito de Herodes (Mc 6.17-29). Paulo disse aos presbíteros de Éfeso: “jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus” (At 20.27) e ordenou a Timóteo: “prega a palavra [...] corrige, repreende, exorta” (2Tm 4.2). Nenhum deles consultou antes o medidor de aprovação cultural. Na verdade, Paulo disse a Timóteo que os mundanos “não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos” (2Tm 4.3) e que, mesmo assim, ele devia suportar as aflições enquanto pregava “quer seja oportuno, quer não”.
A tradição reformada construiu sobre esse alicerce. Como documentam Douglas F. Kelly e David W. Hall, os herdeiros de Calvino em Genebra, na França, na Escócia, na Inglaterra e nas colônias americanas desenvolveram a teoria da resistência e um compromisso com o governo limitado e responsável que influenciou a fundação dos Estados Unidos. O livro de James Baird, King of Kings: A Reformed Guide to Christian Government [Rei dos reis: um guia reformado para o governo cristão], defende que o governo tem o dever moral de reconhecer e promover o cristianismo como a religião verdadeira. Seja qual for a conclusão sobre a tese completa de Baird, ele tem razão ao rejeitar o pressuposto moderno de que a neutralidade religiosa é o ideal cristão, e muito menos o de que aplaudir a construção de mesquitas seja cristão. Não existe terreno neutro. Existe apenas o terreno de Cristo. O ministro precisa estar preparado para expulsar o Inimigo de qualquer terreno que ele tenha ocupado.
Agora eles podem destapar os olhos, os ouvidos e a boca
A política já entrou na sua igreja. Entrou por meio de uma turba em St. Paul. Entra toda semana pelas escolas, pelas telas e pelas assembleias legislativas, formando o seu povo com muito mais eficácia do que um sermão de 35 minutos que nunca dá nome aos ídolos da época.
Os pastores que passaram uma geração obedecendo à boa sociedade não mantiveram suas igrejas puras. Mantiveram-nas fracas. Produziram congregações apáticas, cheias de hereges que, mais do que evangelizar, estão sendo evangelizados.
É hora de os pastores tirarem as mãos dos olhos, dos ouvidos e da boca. Preguem todo o desígnio de Deus. Deem nome aos males que as Escrituras nomeiam. Ensinem ao seu povo que as questões que o mundo declara zonas proibidas para as igrejas são inegociáveis do evangelho. E, quando a cédula estiver diante deles, não deixem suas ovelhas tentando adivinhar. Digam-lhes a verdade e digam-lhes o que fazer com ela.
Notas
¹ Michael Clary, “What Is Loser Theology?”, Michael Clary (Substack), 24 de junho de 2026.
² Clary, “What Is Loser Theology?”.
Sobre o autor
Greg Scott atua há quase 25 anos como líder de comunicação, em âmbito nacional, nas áreas de direito e políticas públicas. Nesse período, ocupou diversas funções na Alliance Defending Freedom, na Heritage Foundation, no Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos e no Corpo de Fuzileiros Navais americano. Nascido no sul da Califórnia e criado em Long Island, Nova York, mora hoje no norte da Virgínia com a família, onde são membros da Spriggs Road Presbyterian Church (PCA).
Publicado originalmente em inglês na Christ Over All: Politics Has Already Come to Your Church. Traduzido e republicado com autorização.


