
Uma nota de rodapé sobre a filosofia cristã: o que Agostinho ensina aos cristãos sobre o estudo da filosofia
Uma nota de rodapé nas Confissões revela o erro de unir a fé à filosofia pagã. Veja como Agostinho ensina o cristão a estudar filosofia à luz de Romanos 1.
"Há quem use a filosofia para desencaminhar as pessoas. Dão cor aos seus erros e os disfarçam com um nome grande, aceitável e honrado" (Confissões 3.8).
Neste verão estou lendo as Confissões de Agostinho com dois dos meus filhos. Ao longo dos anos, indiquei o livro nas minhas aulas de filosofia na Universidade Estadual do Arizona, mas desta vez estamos usando a tradução de Henry Chadwick, da edição Oxford World's Classics. Menciono a edição porque ela traz uma nota de rodapé que resume um dos erros mais comuns da filosofia cristã. Quando a li, pensei: "aí está, todo o problema de Atenas versus Jerusalém numa pequenina nota de rodapé".
A nota aparece na página 23, no fim do Livro I. Agostinho escreve: "Meu pecado consistia nisto: eu buscava o prazer, a sublimidade e a verdade não em Deus, mas em suas criaturas, em mim mesmo e em outros seres criados". Chadwick então comenta: "Agostinho funde São Paulo (Romanos 1) com Plotino (1.6.8)".
Essa breve nota merece atenção porque capta uma suposição muito comum: Agostinho conhecia Paulo e os platônicos, logo deve tê-los fundido. A passagem é um bom ponto de partida para contrastar a filosofia pagã com o ensino bíblico sobre a revelação geral clara. Longe de fundir o teísmo bíblico com o panenteísmo ou o emanacionismo de Plotino, Agostinho ensina os cristãos a estudar filosofia partindo de duas verdades: todos os homens foram criados à imagem de Deus, e todos pecaram e carecem da glória de Deus.
Santo Agostinho, de Philippe de Champaigne, c. 1645
Parte um: Paulo e Plotino
Romanos 1 é um capítulo longo, mas Chadwick provavelmente tem em mente os versículos 18 a 25:
"A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis."
Paulo continua: "porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato". Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos. Mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de criaturas corruptíveis. Por isso, Deus os entregou à imundícia, "pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador" (Rm 1.18-25).
Observe três coisas.
Primeiro, as obras de Deus revelam Deus. A criação é revelação. Conhecemos a Deus porque ele se revela a nós tanto na revelação geral quanto na especial. O mundo não é um material religiosamente neutro a partir do qual o filósofo poderia construir, por especulação autônoma, uma divindade possível. O mundo foi feito pelo Deus vivo e verdadeiro e proclama o seu eterno poder e a sua natureza divina. Deus é eterno (sem princípio), e nada mais o é; todo o resto é criação, que teve um princípio.
Segundo, essa revelação é inferencial. O eterno poder e a divindade de Deus são "percebidos por meio das coisas que foram criadas". As obras de Deus são conhecidas como obras. A criação não apenas desperta um sentimento religioso; ela mostra o Criador por meio do que foi feito. A criação foi originalmente muito boa, está agora sob a maldição de Deus por causa do pecado e será redimida; essas três etapas revelam algo da glória de Deus. O cristão, mais do que qualquer outra pessoa, deveria ser capaz de demonstrar isso. A criação não nos mostra apenas a necessidade de Deus porque os bens criados não satisfazem; ela revela a todos que foi criada por um Criador perfeitamente sábio, poderoso, bom, justo, santo e amoroso.
Terceiro, essa revelação é clara para toda a humanidade. Ela é objetivamente clara, mesmo quando não é subjetivamente clara para pecadores de mente obscurecida. A lei numa placa de limite de velocidade continua clara mesmo que um motorista insista que não consegue entendê-la. Quando ele diz ao policial que o parou "eu não sei ler", só piora as consequências: ele é indesculpável. Da mesma forma, o problema em Romanos 1 não é revelação insuficiente. O problema é a supressão. Há uma revelação clara de Deus a todos os homens, e ainda assim eles adoram ídolos e os usam para suprimir a verdade.
Considere agora Plotino, nas Enéadas 1.6.8. Ele pergunta: "Mas que devemos fazer? Qual é o caminho? Como chegar à visão da Beleza inacessível, que habita como que em recintos consagrados, longe dos caminhos comuns onde todos, até os profanos, podem vê-la?" Sua resposta é o recolhimento: "Quem tiver forças, levante-se e recolha-se em si mesmo, renunciando a tudo o que é conhecido pelos olhos, afastando-se para sempre da beleza material que outrora foi a sua alegria".
As belezas materiais, diz Plotino, são "cópias, vestígios, sombras". A alma não deve persegui-las. Deve "apressar-se rumo Àquilo de que elas falam". Vem então o famoso conselho: "Fujamos, pois, para a amada Pátria". Essa fuga não é geográfica. "Não é uma jornada para os pés." É preciso deixar de lado a ordem visível, "fechar os olhos" e despertar dentro de si "outra visão".
Plotino é um panenteísta ou emanacionista que nega a criação ex nihilo. Ele ensina que o ser emana do Uno, com a matéria na extremidade inferior. A matéria aponta para o Uno de forma negativa, por ser imperfeita e limitada. Entre a matéria e o Uno há vários níveis de seres espirituais, e a alma humana precisa ascender até alcançar a perfeição numa visão direta (não cognitiva, além de todo pensamento) do Uno no reino inteligível.
O contraste entre o teísmo bíblico de Romanos 1 e o neoplatonismo de Plotino não é pequeno. O teísmo bíblico ensina que as obras de Deus revelam Deus e que o conhecimento de Deus a partir de suas obras faz parte do bem supremo do homem. O platonismo e o neoplatonismo pagãos ensinam a alma a se afastar do mundo material para ascender rumo a um ser superior. Em Paulo, o homem é culpado porque suprime a revelação de Deus na criação. Em Plotino, a ordem visível é algo a ser deixado para trás na ascensão da alma. Alguns filósofos pagãos ensinavam que a existência material era de fato má; outros, que era neutra; outros, que era boa, mas não tão boa quanto a escalada pela cadeia do ser.
O teísmo bíblico ensina que o mundo foi criado muito bom. Ele revela a glória de Deus. O mundo está agora sob a maldição de Deus por causa do pecado, e isso também revela a glória da justiça e da misericórdia de Deus. Na redenção, os cristãos não escapam da existência material. Eles ressuscitam dos mortos com corpos físicos para habitar uma criação renovada. Em contraste, boa parte da filosofia platônica e neoplatônica ensinava a alma, talvez depois de reencarnações sem fim, a fugir dos apegos corporais e materiais em busca de uma realidade inteligível superior.
Isso também esclarece a linguagem bíblica sobre ver a Deus face a face. A Escritura diz que Deus é espírito e que nenhum homem o viu nem pode vê-lo, e também que Deus falava com Moisés face a face, mas Moisés não viu forma alguma. O conhecimento face a face significa amizade íntima e revelação divina direta (a Moisés), em vez de conhecimento por meio de sinais e sombras (ao povo de Israel). Os fariseus viram Jesus face a face, e isso de nada lhes valeu. Face a face não significa uma visão imediata e suprarracional (não cognitiva) de um ser supremo impessoal, além do pensamento. Paulo e Plotino não estão dizendo a mesma coisa.
Parte dois: a filosofia cristã de Agostinho
"Os filósofos disseram coisas verdadeiras, mas nem mesmo a eles eu teria por autoridade diante do amor por ti, meu Pai sumamente bom, beleza de todas as coisas belas" (3.10).
Agostinho nos oferece um caminho melhor do que Chadwick jamais imaginou.
No Livro II das Confissões, Agostinho explica que o pecado é cometido quando cedemos irracionalmente a um desejo desmedido por um bem menor, em vez de buscar o bem supremo. Agostinho mostra como o pecador, criado à imagem de Deus e vivendo no mundo de Deus, é atraído por algo real. O mundo contém verdade, beleza e bondade. O pecador não ama simplesmente os seus crimes enquanto crimes. Ele ama neles algo que aponta para além deles. Agostinho escreve: "Não, nem mesmo o próprio Catilina amava os seus crimes" (2.14).
O seu próprio furto das peras ilustra o ponto. Agostinho não roubou porque tinha fome. Não roubou para alimentar outros. Não roubou porque as peras eram excelentes; na verdade, tinha peras melhores à disposição. Ainda assim, roubou, e diz que amou o furto. Contudo, ao analisar o pecado, percebe que não o teria cometido sozinho. O pecado estava ligado à companhia. Até esse ato feio se agarrou, como parasita, a um bem criado: a amizade. A desordem não estava no fato de a amizade ser má. A desordem estava em Agostinho amar a comunhão no pecado em vez da comunhão em Deus.
É assim que Agostinho nos ensina a estudar filosofia. Ao estudar os filósofos pagãos, podemos perguntar: como criaturas cuja mente foi feita à imagem de Deus, o que eles estão percebendo? Platão percebe que os materialistas gregos estão errados e que a alma e as ideias são imateriais. Aristóteles percebe que as coisas têm naturezas e que a natureza é ordenada teleologicamente. Aristóteles estuda conceitos, proposições e argumentos e nos dá a sua anatomia. Os filósofos buscam sentido por meio da compreensão do mundo. Como o mundo é o mundo de Deus, eles inevitavelmente deparam com verdades que dão testemunho dele. E, no entanto, isso só aprofunda a sua indesculpabilidade, tanto por não conhecerem a Deus quanto por promoverem uma falsa divindade.
As Confissões estão cheias de argumentos que mostram que o mundo material não existe desde a eternidade e que a alma humana não existe desde a eternidade. Aristóteles ensinava a eternidade do mundo. O Timeu de Platão oferece um relato demiúrgico da ordem cósmica que platônicos posteriores muitas vezes leram de modo não cristão. Em nenhum dos dois casos recebemos a doutrina bíblica da criação a partir do nada pelo Deus vivo.
Para Agostinho, o pecado da incredulidade não é um infortúnio passivo imposto a alguém por circunstâncias históricas, como ter vivido em Atenas e não em Jerusalém. Os homens, como pecadores, estão em rebelião contra Deus. A rebelião se expressa na recusa em crer no que está claramente revelado na criação. A rebelião é fundamentalmente irracional: baseia-se na negação de quem Deus é como Criador e de quem nós somos como criaturas. Platão e Aristóteles são indesculpáveis pelas divindades idólatras que promoveram e por terem suprimido o conhecimento de Deus para milhões de pessoas ao longo dos séculos.
A filosofia, como estudo da revelação geral, também nos aponta a nossa necessidade de redenção. O pecado da incredulidade não pode ser corrigido com mais aulas e livros didáticos. Depois da queda, embora a revelação geral continue clara, a mente pecadora está obscurecida. "Em tudo isso havia uma névoa espessa que me separava do brilho do teu rosto, meu Deus" (2.8). Para a explicação de como Deus redimirá os pecadores, a revelação geral nos aponta a revelação especial (Confissão de Fé de Westminster 1.1).
Conclusão: um retorno à filosofia cristã
Essa pequena nota de rodapé na nossa leitura de verão deu início a uma conversa com meus filhos sobre o profundo contraste entre a filosofia pagã e a revelação geral clara. Que Chadwick tenha pensado que Agostinho, Paulo e Plotino ensinavam a mesma coisa não é apenas um engano. Indica um problema sério, que tem afligido a filosofia cristã e a academia cristã quando tentam uma síntese com filósofos pagãos que negam a revelação geral clara. Mas o próprio Agostinho fornece a solução. E é isso que torna essa nota de rodapé nas Confissões de Agostinho ao mesmo tempo reveladora e irônica.
Publicado originalmente em inglês na American Reformer: A Footnote on Christian Philosophy.


